Arquivo para dezembro \26\-03:00 2013

Voo dos hipócritas

Voltamos de Cuba para casa em um voo com conexão no Panamá. Assim que, no segundo trecho da viagem, da Cidade do Panamá a Brasília, o voo reunia pessoas de diversas origens além de Cuba, majoritariamente dos Estados Unidos da América, mais precisamente de Miami.

Foi curioso ver todos aqueles cristãos abarrotados de malas e sacolas, fruto de seu consumismo desenfreado, já condenado pelo atual líder da igreja católica, sobre o que falamos no texto anterior. Quero crer que tinham marcado a viagem antes do Papa alertar que era coisa má e já não vão repetir tal ato.

Foi curioso também observar que nenhum dos passageiros se dirigiu para a fila de bens a declarar quando chegamos ao Brasil, deixando claro de que só traziam em suas malas e sacolas o que era permitido, como seria legítimo aos bons cristãos, ainda que consumidores.

Mas, interessante mesmo em tudo isso é a certeza de que aqueles homens e mulheres de bem que voaram no mesmo voo que eu, que se deslocaram do Brasil aos Estados Unidos da América para trazer na bagagem apenas o que é permitido, na próxima passeata contra a corrupção e tudo isso que está aí vão vestir seu modelito mais bonito e sair às ruas de peito aberto, pedindo honestidade a seus semelhantes.

Hipocrisia, taí uma coisa que eu não aguento.

Consumismo, ato não cristão

Justamente na semana em que estávamos em Cuba, o Papa, figura maior da igreja católica divulgou seu primeiro documento como líder máximo da igreja católica, a Primeira Exortação Apostólica do Papado de Francisco, intitulada A alegria do evangelho. Nela, chama o capitalismo de tirania invisível, afirma que a distribuição desigual da riqueza gera violência e ataca a idolatria do dinheiro.

O Papa afirma contundentemente que “tal economia [a capitalista] mata. Daí que até que não termine o domínio absoluto dos mercados e sua especulação financeira, e até que não se ataquem as raízes dessas desigualdades, não se encontrará nenhuma solução aos problemas do mundo, ou a nenhum problema”.

Em visita a uma das obras de Madre Teresa de Calcutá, em Roma, o líder máximo da igreja católica ainda analisou: “Um capitalismo selvagem ensinou a lógica do lucro a todo custo, do dar para obter, da exploração sem olhar para as pessoas…. e os resultados nós vemos na crise que estamos vivendo”, de acordo com matéria do site Canção Nova.

Quem vê notícias das filas que são feitas nas lojas quando um novo modelo de celular vai chegar ao Brasil e dos preços que as pessoas pagam para ter o tal novo modelo, mesmo quando o modelo adquirido no ano passado ainda funciona muito bem, talvez não consiga imaginar que no mesmo planeta haja uma sociedade que ainda usa como transporte carros anos 1940 e quase nenhum celular. O embargo econômico sofrido por Cuba e o desapego ao consumo faz com que se tenha uma sociedade assim. Ou seja, a sociedade comunista cubana tem um estilo de vida bem mais cristão do que muitos católicos que a gente vê por aí…

SF no El Patio, com a Catedral ao fundo 4

Vendo essas atitudes de filas, consumo desenfreado e transformação do que seria uma data religiosa em dia internacional da troca de presentes, fica impossível não pensar também em todo o apelo que se tem feito pelo menor consumo de matérias primas, porque o mundo está em escassez. Então, mesmo quando o celular é “baratinho” ou até de graça – porque falei tanto ao longo do ano, paguei tantas chamadas, que tenho direito a um novo aparelho, para falar mais e gastar mais – o consumo de matéria prima e insumos para a fabricação do novo aparelho existe. Ou seja, o mal para a sustentabilidade do planeta está feito, independente de mexer no bolso ou não. Consumo é consumo. Não precisa envolver diretamente o seu dinheiro para não ser bom.

Quantas vezes desde a década de 1940 a família média do mundo capitalista trocou de carro? A cubana, nenhuma. O táxi Ford 48 que nos levou do centro de Havana para o hotel tinha sido do avô do motorista. E ele comentou sobre sua surpresa ao ver o rápido desgaste de peças de carro equivalentes em modelos novos e comparou com as peças bem conservadas que tem em seu carro. Disse que um item que dura três ou quatro décadas em seu carro, que roda 24 horas por dia, porque os motoristas se revezam, não durariam três anos em um carro novo.

Depois dessa conversa, a analogia com as pessoas que trocam de celular ou as roupas do armário todos os anos se torna óbvia. É triste ver como no mundo capitalista as pessoas são manipuladas pelos interesses econômicos dos outros. Basicamente, trabalham para comprar coisas que não precisam e dar lucro a outras pessoas, que, por sua vez, exploram seus trabalhadores para ficarem ainda mais ricos.

Nem o Papa aguenta mais isso…

Aproveito para sugerir a leitura do texto sobre o tema: Papa fala sobre crise do capitalismo selvagem durante visita a obra social, do site Carta Maior. 

Tentando entender Cuba

Explicar por que escolher ir a Cuba não é difícil. Difícil é explicar por que voltar para casa tão rápido.

Tudo foi maravilhoso. Mesmo com os contratempos – tive uma forte reação alérgica, dos três dias de praia em Varadero só uma tarde teve céu aberto e nossa agenda não coincidiu com a do Museu da Revolução, que tanto queríamos conhecer -, a ideia de voltar a visitar a ilha não nos sai da cabeça. Na viagem de volta para o Brasil, já planejávamos o retorno e isso não é comum para duas pessoas que adoram desbravar novos lugares, conhecer novas culturas e não se adaptam a rotinas e repetições.

ruas de Cuba

O fato é que ainda há muito o que conhecer e compreender em Cuba e temos que ir enquanto ela não se iguala a outros lugares do planeta, porque a abertura econômica pode estar levando a isso, o que fará perder grande parte do charme.

Para entender Cuba, além de se despir de seus conceitos, formados em uma sociedade completamente distinta, é preciso estudar, ler, aprender. Ir lá, dar uma olhada superficial, ter vida de turista e sair ditando tratados sociológicos, é, no mínimo, irresponsável. Se não estiver disposto a tanto, apenas vá, aproveite a beleza e a efervescência cultural da cidade de Havana, se acabe nos mares de água verde e limpa do Caribe, desfrute dos maravilhosos hotéis cinco estrelas (estatais, claro) e faça apenas comentários de turismo. Não se aventure.

Posto isso, vou dar aqui apenas uma pincelada no que pude ver além do olhar turístico, porque não tive tempo nem condições de me dedicar tanto quanto seria necessário para ir além. Vou tentar, ao máximo, zerar meus valores e preconceitos para entender o melhor possível o pouco que vi.

Interior da Catedral de Havana

Interior da Catedral de Havana

Religião – O velho Flosi já ensinara que Cristo foi o primeiro comunista de que se tem registro. Não o Cristo na cruz, filho de um ser imaginário, mas o Cristo figura histórica. No livro Fidel y la religion, que traz conversas de Fidel com Frei Betto, o comandante cubano analisa: “Eu lhes digo que há um grande ponto de convergência entre os objetivos que preconiza o cristianismo e os que buscamos os comunistas; entre a doutrina cristã da humildade, da austeridade, do espírito de sacrifício, do amor ao próximo e tudo que se pode chamar de conteúdo da vida e conduta de um revolucionário”.

Em uma conferência realizada em Cuba, dias antes da entrevista com Fidel para o referido livro, Frei Betto afirma: “Para Jesus, o mundo não se divide em puros e impuros, como queriam os fariseus; se divide entre os que estão a favor do partido da Vida e os que apoiam o partido da Morte. Tudo o que gera mais vida, do gesto de amor à revolução social, está alinhado com o projeto de Deus, da construção do Reino, pois a vida é o maior dom que Deus nos dá”.

Aponto essas citações para observar o fato de que a religião não é execrada, nem tão pouco proibida ou coibida na ilha comunista. O governo, inclusive, transfere recursos para algumas obras da igreja. Me pareceu mais democrático, até, do que países como a França, que se dizem laicos e proíbem uma estudante de entrar na escola com a cabeça coberta pelo véu muçulmano, mas outra pode entrar na mesma escola com uma cruz pendurada no pescoço.

Tudo é do povo, porque é do Estado – em Cuba existem hoje o que no Brasil chamamos parcerias público-privadas, onde o governo se associa a empresas privadas (no caso de Cuba, estrangeiras), que querem investir no país. Lá, neste modelo, no mínimo metade do empreendimento e 100% dos funcionários são cubanos. Isso faz parte da abertura da economia, implantada nos anos 1990. Nas ruas, os mais velhos, que viveram a revolução e sabem a diferença que fez ao país, não aprovam este novo modelo e temem: “Estamos a caminhar rumo ao capitalismo. Está mui mal a coisa”. Esses prefeririam se manter comunistas puros, sem influência e presença de empresas privadas, ainda que em situação minoritária. Já para os mais jovens, a quem os apelos das propagandas comerciais de consumo atingem mais facilmente, a abertura tem sido positiva, permite acesso a bens que antes não podiam ter. Não se sabe o quanto esses bens eram necessários, mas agora são e parte da população tem gostado de acessá-los.

Modelo econômico – a revolução em Cuba implantou um novo modelo econômico, que nunca foi testado em sua plenitude. Houve um embargo, que significava algo assim: se você comercializa com Cuba, não comercializa com os Estados Unidos. Isso, em um momento em que se tinha imputado ao mundo a ideia de que os Estados Unidos valiam alguma coisa, de que o bom era ter na sua casa um pote de xampu americano (ainda que a qualidade fosse ruim perto do que se tinha de oferta em outros países). Então, nunca saberemos o sucesso que teria sido Cuba se tivesse podido importar para a ilha tudo que não era produzido lá e exportar para qualquer país seu excedente. Como seria poder ter feito isso sem permitir a exploração do homem pelo homem, princípio até hoje mantido na ilha?

Eles comem criancinhas – a imagem vendida de Cuba em oposição à americana é caricata, para não dizer ridícula. Mas para a pessoa média, que se conforma com as informações dos jornalões, passa a ser fato. Frei Betto, no já citado Fidel y la religion, afirma que a imagem de homens maus dos comunistas é parte dos caprichos do imperialismo que, mediante seus poderosos meios de comunicação desenha em nossas cabeças a caricatura dos seus inimigos. “Pinta a Raul [Castro, irmão de Fidel, ministro das Forças Armadas de Cuba nas primeiras décadas após a revolução] como a um sectário e a John Kennedy como um bom moço. Mas quem planejou, organizou, patrocinou e financiou a invasão da Baía dos Porcos, em 1961, em flagrante falta de respeito à soberania do povo cubano, foi o jovem, risonho, democrata e católico marido de Jacqueline”. E é isso que temos visto os Estados Unidos da América fazerem ate hoje: pintam como malvados seus inimigos econômicos para justificar sangrentas guerras e ataques cruéis.

Em resumo, o que ficou para mim foi a impressão de um lugar lindo, tanto na arquitetura quanto nas belezas naturais. Um povo simpático, gentil, quase ingênuo e muito amável. E um governo de cunho matriarcal, que quer fazer os filhos usarem agasalho mesmo quando estes não sentem frio. Explico: a moça que não gosta do leite de soja ou o senhor que pede xampu, citados no texto Estamos adorando Cuba são como jovens que saem de casa vestindo só camiseta quando a mãe diz que se faz necessário agasalho.

O governo age como se quisesse o melhor para seus filhos. Quer controlar, por exemplo, o uso de óleo na alimentação, porque quer que haja diminuição das frituras na mesa da família cubana. E todo esse controle exercido em diversos aspectos pelo governo é baseado, muitas vezes, em pesquisas, em resultados da medicina e da ciência. Mas, até que ponto o cidadão não tem o direito de se acabar no colesterol? Não seria suficiente, para um povo tão culto, tão inteligente, receber a informação? É preciso isolá-lo das más influências? Em todo o mundo, é isso que as mães tentam fazer o tempo todo. Mas não é paternalista demais um governo decidir como são as ações cotidianas nos interiores dos lares? Não sei. Preciso voltar para viver mais e compreender melhor, porque eu não aguento gente que critica ou idolatra sem ter tentado compreender com o mínimo de profundidade o que se passa.

sinal fechado em Cuba

Curiosidades para ficar bem em Cuba

Cuba
Algumas dicas importantes para quem pretende conhecer a ilha de Fidel:
Visto – antes de ir é preciso tirar o visto, que não é um visto comum, carimbado ou selado no seu passaporte, mas uma espécie de voucher, chamado de Tarjeta Turística e custa atualmente R$ 45. Em geral, as operadoras de turismo que trabalham com o destino, fazem isso para você. Basta enviar uma cópia do passaporte e preencher um formulário. A Tarjeta Turística tem validade de 30 dias, que pode ser prorrogada por mais 30 no próprio hotel onde você se hospedar ou nas autoridades nacionais de imigração. Vale observar que a tarjeta é válida para uma só entrada no território. Se sair, mesmo que voltar antes dos 30 dias, terá que tirar outra. Mais detalhes podem ser encontrados na sessão de Serviços Consulares do site da Embaixada de Cuba no Brasil. Também tem uma matéria bem detalhada sobre isso no site Melhores Destinos.
Dinheiro – Você pode trocar dólares ou euros por CUCs (a moeda cubana para turistas) em casas de câmbio no aeroporto ou no hotel. Em geral, 1 CUC vale cerca de 1 dólar. Mas trocar Euro vale mais porque as taxas sobre o dólar são mais altas. Antes de ir, eu li em alguns lugares que o presidente Raúl Castro estaria em vias de implantação da unificação da moeda. Lá, ninguém ainda ouviu falar sobre isso. Então, funciona assim: tem o CUP, que é o Peso Cubano, moeda utilizada pelos cidadãos cubanos, e o CUC, peso conversível, moeda utilizada pelos turistas. Com um CUC você compra cerca de 23 CUPs. Mas você não vai precisar fazer isso, porque é turista e não vai usar a moeda dos cubanos. Então, esqueça CUP, pense em CUC (mais ou menos 1 dólar) e relaxe, porque a vida lá é razoavelmente barata.
Nota de 3 CUPs, utilizada pelos cubanos, mas cobiçada pelos turistas pela face do Che

Nota de 3 CUPs, utilizada pelos cubanos, mas cobiçada pelos turistas pela face do Che

Nota de 20 CUCs, a moeda dos estrangeiros em Cuba

Nota de 20 CUCs, a moeda dos estrangeiros em Cuba

Cartão de crédito – raríssimos são os lugares que aceitam. O melhor é garantir com dinheiro na mão mesmo. Mas, se for levar, certifique-se que não é emitido por um banco estadunidense. Se for, não será aceito nem onde se aceita cartões.
Custo – Com 50 dólares por dia, você se alimenta, anda de táxi e faz os passeios. Com 100 dólares por dia, você ainda traz na bagagem metade de Cuba em lembrancinhas e livros que você só vai encontrar lá. (Aliás, eu li também em algum lugar que o peso máximo de bagagem permitido pelo país era 20 quilos por pessoa. Eu acreditei. Na hora de voltar, perguntei na companhia aérea qual era o limite e fui informada que são 32 quilos. Quanta coisa eu deixei para trás! Enfim, quando for, não custa se precaver e confirmar novamente a informação.) Para se hospedar em um hotel categoria turística (3 estrelas), você vai gastar cerca de R$ 100 por noite, com café da manhã, podendo encontrar boas ofertas, dependendo da temporada. Em um 5 estrelas histórico, como o Hotel Nacional, a brincadeira já fica um pouco mais cara, podendo ultrapassar R$ 300 por noite. Cuba tem lembrancinhas muito originais e também uma boa oferta de livros, tanto em livrarias, quanto em sebos a céu aberto. Nas livrarias, como o foco de venda são os nativos, os valores são, em geral, em CUPs. Mas isso só melhora a vida do turista, porque quando chega no caixa é feita a conversão e um livro sai por menos de R$ 2. O preço das lembranças, camisetas, bolsas com a cara do Che Guevara, etc. não varia muito pela cidade. Você encontra no centro da cidade mais ou menos o mesmo preço que no hotel ou no aeroporto. É uma das vantagens de tudo ter o mesmo dono, o Estado.
Taxa de saída – Na saída do país, depois de fazer o seu check-in na companhia aérea, será necessário pagar uma taxa aeroportuária, que não é cobrada juntamente com o valor da passagem e só pode ser paga neste momento e em efetivo. Atualmente, a taxa é de 25 CUCs. Portanto, lembre de deixar esta reserva. Na verdade, a saída obedece a uma sequência de filas, que todos fazem igual: check-in, pagamento da taxa de saída e troca dos CUCs que sobraram por euros ou dólares. Os balcões ficam lado a lado e é só seguir o fluxo.
Gorjeta – antes de ir para lá eu não tinha lido nada a respeito do assunto. Então, meio que fomos experimentando. Experimentamos deixar 1 CUC nos restaurantes, independente da conta final. Deu certo. Experimentamos dar algumas moedas, tipo 40 ou 50 centavos de CUC para a tiazinha que toma conta do banheiro. Deu certo. Experimentamos não dar gorjeta para o taxista, só pagar o cobrado. Deu certo. Enfim, concluímos que 1 CUC para quem você for com a cara está de bom tamanho. Em nenhum momento fomos cobrados a deixar gorjeta ou hostilizados por não fazê-lo ou deixar pouco.
Papel higiênico – Está aí um item que eu não costumo listar nas dicas de viagem. Mas, no caso, é importante. Papel higiênico é um dos artigos controlados em Cuba. Por conta do embargo econômico sofrido pelo país, a entrada de alguns itens fica difícil. Então, claro que no hotel você encontra o artigo no seu banheiro. Mas, nos banheiros públicos, de museus, restaurantes, casas noturnas, aí pode não haver. Ou, no máximo, tem aquela tiazinha que toma conta do pedaço em troca de algumas moedas. Ela toma conta não só do banheiro, como do pedaço do papel higiênico também. Você dá uma moeda e ela lhe dá um tanto de papel. Sempre o mesmo tanto, não adianta melhorar a moeda. Então, para evitar imprevistos, a dica é andar sempre com lenços de papel ou mesmo um rolo de papel higiênico na bolsa.
Comunicação – telefonar para o Brasil de telefones fixos sai caro e nem sempre se consegue completar a ligação. O primeiro minuto pode valer mais de 5 CUCs e depois 0,05 centavos a cada minuto. Alguns telefones celulares do exterior podem obter sinal por lá, desde que seja contrato pós pago e a operadora de origem tenha convênio de roaming com a Cubacel. Para mais detalhes, pode entrar no site da operadora cubana, que é o www.cubacel.cu. Internet é cara e rara: cerca de 10 CUCs por uma hora nos hotéis e você só consegue sinal wi-fi em alguma área restrita, como o lobby, ou nem isso: tem que usar o computador com cabo ADSL do hotel, que não vai disponibilizar muitas máquinas e as que tiver serão lentas. E alguns programas, como o Skype, me parece serem bloqueados, porque não consegui entrar nem pelos computadores de hotel, nem do meu próprio, quando usei wi-fi. Ou seja, a comunicação com o exterior, em geral, é difícil. Dá até para entender que talvez a ideia seja não deixar os nativos se contaminarem pela propaganda externa, pelo vírus do capitalismo e do consumismo… mas, nós, turistas, já estamos perdidos, nem adianta… enfim, de certa forma é até bom, porque isso faz com que lá férias ganhem ares de férias de verdade.

Comendo em Cuba

A gastronomia cubana me pareceu bastante simples, com cara de comida de mãe. Muito boa, saborosa, mas sem grandes elaborações. Posso estar sendo injusta, porque metade do que se oferece por lá, eu não posso comer por questões de alergia. Afinal, em uma ilha, peixes e frutos do mar não poderiam deixar de ser o forte. Além disso, a culinária cubana tem grande influência espanhola e africana, o que para mim é, praticamente, comida de casa. Também tudo é bastante oleoso e ando evitando óleo demais na comida. Mas, até mesmo as sobremesas, que sempre me interessam, não me surpreenderam. Em geral, são feitas de frutas típicas de regiões tropicais, com melaço da cana de açúcar.
Por outro lado, a efervescência histórica do lugar pode ter se sobreposto e redirecionado meus interesses. Mas, é claro, comemos por lá, conhecemos ótimos lugares, ambientes agradáveis, pontos históricos e frequentados por personalidades de diversas partes do mundo. Assim, é possível traçar um pequeno roteiro.
Os pratos variam muito em torno dos seres que vivem no mar, como eu já disse, além do porco e do frango. Eu gostei bastante de um que comi no La Bodeguita del Medio, que era carne de porco e arroz com gris, um arroz misturado no feijão preto, que fica uma delícia. Em geral, a salada que acompanha os pratos é feita, basicamente, de legumes e não tem muita variedade de folhas. O mais comum é ter só repolho. Também adorei as bananas chips que acompanhavam alguns pratos ou serviam como entrada. Ainda que seja na categoria fritura, eu não resisto!
Na Plaza de la Catedral (citada no post anterior, Cuba Turística) tem o El Patio, com cardápio variado, vasta adega e ambiente bastante animado. Quem optar por ficar no térreo, vai poder acompanhar os dançarinos do restaurante e entrar na dança também. No andar de cima tem um ambiente interno e uma pequena varanda, com meia dúzia de mesas, onde é possível se divertir vendo a dança lá embaixo, sem necessariamente pagar o mico.
Perto da Plaza de la Catedral, seguindo pela rua Empedrado, no primeiro quarteirão está La Bodeguita del Medio. Um dos pontos mais famosos de La Havana, por ter sido frequentado pelo escritor Ernest Hemingway e seus amigos Fidel Castro e Nat King Cole. Lá, Hemingway tomava Mojito. A bebida é feita com 20 ml de suco de limão, meia colher de açúcar, 100 ml de água com gás, um galho de hortelã (cerca de 8 a 10 folhas) amassadas com pilão, três cubos de gelo e uma dose de rum branco.
La Bodeguita del Medio
Em outro ponto não muito distante, na rua Obispo (que está paralela à Empedrado), fica o restaurante Floridita, onde Hemingway ia para tomar Daiquiris. Este drinque também contém rum branco, suco de limão, açúcar e gelo, desta vez picado e não em pedras. Devo dizer que depois de conhecer os locais populares e as bebidas suaves no sabor, mas com alto teor alcoólico escolhidos por Hemingway, seus livros ganharam ainda mais valor para mim. O cara sabia viver.
tuKola e BucaneroPara quem é mais do tipo cervejeiro, em Cuba também são produzidas cervejas, como a Cristal e a Bucanero. E para sair das alcoólicas, nos restaurantes, em geral, você encontra algumas opções de suco natural e “de caixinha” e até Coca-Cola e outras bebidas da marca, como Fanta, Sprite, etc. Mas é muito mais charmoso tomar tuKola, o refrigerante cubano, não?
Bem perto do Floridita, exatamente em frente ao Capitólio, fica a opção boa e barata da região de Havana Vieja: o restaurante Los Nardos. No site Melhores Destinos tem a indicação do restaurante, como sendo cheio de pompa, mas com excelente custo-benefício. O cardápio parece ser bastante variado, com foco nos peixes, camarões e frutos do mar. Além disso, o texto já indicava o que pudemos comprovar ao chegar lá: fila enorme na porta. Minha alergia aos peixes e seus parentes e a fome que não permitia esperar na fila fizeram com que não conhecêssemos o lugar por dentro. Quem sabe, na próxima…
Na rua 23 com L fica a sorveteria Coppelia, situada em um jardim, perto do hotel Nacional. O jardim tem um pavilhão de concreto com obras de arte. A sorveteria é tradicionalíssima e famosíssima em Cuba. Também costuma ter filas. Mas, por termos ido numa segunda-feira, quando o jardim está fechado e só se tem acesso mesmo à sorveteria, demos sorte e não tinha fila. O bom do sorvete é ser artesanal.
Vista do alto do hotel Habana Libre
Na esquina em frente à Coppelia, fica o Hotel Habana Libre, que tem um café que funciona 24 horas, 3 bares, 4 restaurantes e muita história. O hotel pode ser considerado o mais emblemático da cidade. Foi construído sob a ditadura de Fulgêncio Batista, na década de 1950. Após a vitória revolucionária em 1 de janeiro de 1959, serviu de alojamento para Fidel Castro e sua coluna. Por três meses, o posto de comando da revolução trabalhou no apartamento 2324 do hotel.
Chegando na famosa suíte 2324

Chegando à famosa suíte 2324

No lobby é possível ver uma galeria de fotos com registro das atividades por ali nos primeiros dias pós revolução.

Galeria de fotos no Habana Libre

Cuba turística

Existem muitos destinos diferentes em Cuba. Tem história no norte e no sul da ilha, tem lagos, montanhas e prados maravilhosos – onde se encontram até vinícolas – no centro, tem praia para todos os gostos, sempre azuis e paradisíacas. Vale lembrar que estamos na região do mar do Caribe ou das ilhas Caraíbas, como dizem os amigos de Portugal.

Como tínhamos míseros 7 dias, fizemos o basicão, que se resume à capital do país, Havana, e Varadero, uma península com 22 quilômetros de praias, a cerca de duas horas da capital, na província de Matanzas. Não vou aprofundar sobre Varadero, porque ficamos três dias dentro do hotel, que é um resort do estilo coma e beba o quanto quiser, inclusive do frigobar do quarto, e as atrações são: praia, piscina, restaurantes, apresentações culturais… Aliás, em Varadero, hospedagem desse tipo é o que mais tem. Para encontrar hotéis em qualquer um dos destinos de Cuba você pode usar o site de reservas Trivago. Lá você tem a lista dos principais sites de reserva de cada hotel e é possível conferir, inclusive, a opinião de quem já se hospedou.
Em Havana, a primeira dica é ir até o centro, conhecido como Havana Vieja e caminhar, caminhar, caminhar… são ruas antigas, com casas históricas, “do tempo da colônia”, como diria um moçambicano. O centro está em restauração total. Há muitos homens trabalhando em todos os lados. Mas, nada que atrapalhe o turismo. O que mais atrapalha, na verdade, é a falta de informação. Por exemplo, mesmo nos hotéis de redes internacionais onde, normalmente, na recepção você encontra folhetos e informações de pontos turísticos e mapas da cidade, nada existe. Conseguimos um mapa, pedindo a uma pessoa da recepção e nada mais. Então, tem que ir preparado para desbravar e arriscar horários e rotas. Para informações turísticas oficiais, o Portal Cuba – Turismo é o que encontrei de mais completo, além disso você pode visitar os centros de informação turística Infotur, em alguns pontos da cidade.
Palacio de Artesanía

Palacio de Artesanía

O ponto de partida pode ser o Palacio de Artesanía, que fica bem em frente ao edifício da Polícia Nacional Revolucionária. Lá dentro há um café e diversas lojas de… artesanato, como não podia deixar de ser com esse nome! Bolsas e carteiras de couro, acessórios, bijuterias, roupas, objetos de decoração em madeira… cada loja trabalha com um tipo de material. No térreo há também uma loja de bebidas e petiscos como salgadinhos e chocolates para levar. As bebidas vão do café ao rum, um dos principais produtos de exportação de Cuba.

Eu não lembro de ter visto no Palacio venda do famoso charuto, também importante para a economia cubana. Mas, curiosamente, foi lá que comprei os tais. Ou, quase lá… na cooperativa, como dizem. Sinceramente, eu não consegui entender ainda o grau de legitimidade da tal cooperativa. Mas, segundo nos informaram, haveria autorização do governo cubano para os funcionários das fábricas de tabaco formarem cooperativas e comercializarem o produto. Enfim, a cooperativa que eu fui funciona na casa de uma família, em um edifício ao lado do Palacio da Artesanía. Ruim o charuto não deve ser. Sem contar que valeu só por eu ter entrado e sentado no sofá e conversado com uma família cubana. Na dúvida, compramos também charutos em uma loja oficial da Cohiba, uma das principais marcas do país. Foi divertido que o senhor que me conduziu à tal cooperativa é uma espécie de chefe dos guias que ficam em frente ao Palacio de Artesanía abordando os turistas. Ele organiza a galera, entende a característica de cada turista, tem a fala mansa e, como sempre, conhecimento de cultura, história, geografia… Fomos lá por dois dias e acabamos nos entretendo muito com o cara, o que justificava também se deixar cair na conversa dele.

No El Patio, com a Catedral ao fundo

No El Patio, com a Catedral ao fundo

Seguindo pela rua Cuba, que é a própria do Palacio de Artesanía, você vai encontrar a Catedral de San Cristóval de La Habana, na Plaza de la Catedral. Assim como a Catedral, construída no século XVIII, os edifícios da praça têm estilo barroco. Em um deles funciona o simpático restaurante El Patio. Ao lado, tem outra loja grande de artesanato variado.

Em todas as ruas da região, há prédios antigos onde ficam alguns comércios e também moradias dos cubanos. É curioso andar pelo centro à noite e ver a sala, cuja janela dá direto para a rua, com a televisão ligada na novela brasileira.

Capitólio 2Outro ponto de interesse em Havana Vieja é o Capitólio Nacional, uma construção imponente, da segunda década do século XX, muito parecida com o Capitólio de Washington, D. C, nos Estados Unidos da América. Já foi sede do governo cubano, Biblioteca Nacional e Academia Cubana de Ciências. Atualmente, está fechado para reforma. Logo atrás, fica a fábrica de Tabaco Patargás, também fechada para reforma. Mas a lojinha funciona.
No sentido oposto, seguindo pela rua Obispo, fica a Plaza de Armas. Na primeira praça da cidade é possível encontrar diversas barraquinhas de antiguidades, discos de vinil e livros usados. Na mesma praça fica o Museu da Cidade, abrigado na antiga casa de capitães generais cubanos, que foi também palácio presidencial. No museu é possível ver móveis e utensílios de séculos passados, além da galeria de fotos dos capitães que por lá passaram.
Em pontos mais afastados, mas acessíveis por meio de breves corridas de táxi, ficam o Malecón e a Plaza de La Revolución. O Malecón é um grande calçadão à beira do mar. É uma parte aterrada da cidade e não tem praia entre as ruas e o mar, apenas um muro onde batem as ondas, muitas vezes ultrapassando os limites do concreto e molhando os desavisados que caminham por lá.
Malecón visto da janela do hotel

Malecón visto da janela do hotel

Do próprio Malecón, seguindo pela rua Paseo, em uma caminhada de meia hora por quadras residenciais de arquitetura colonial, chega-se à Plaza de La Revolución, um dos cenários mais conhecidos de Cuba no exterior, por ter aparecido sempre repleta de cidadãos assistindo aos longos discursos de Fidel Castro. É uma enorme praça de concreto, rodeada de edifícios, onde em dois deles constam as imagens de Che Guevara e Camilo Cienfuegos, dois dos principais revolucionários que, ao lado de Fidel, libertaram o país da ditadura de Fulgêncio Batista. Em frente à praça fica o Memorial a José Martí, político e jornalista criador do Partido Revolucionário Cubano (PRC) e grande mártir da independência de Cuba com relação à Espanha.
Ao fundo Che e Cienfuegos. Na frente, Castro. Não o Fidel, outro Castro

Ao fundo Che e Cienfuegos. Na frente, Castro. Não o Fidel, outro Castro

Leitora flagra carro estacionado na faixa de pedestres

Vamos dar uma pausa nas descobertas cubanas, para tratar de um assunto presente no cotidiano de quem vive em Brasília: falta de civismo no trânsito.

Conforme está divulgado aqui em Você aguenta?, as pessoas que também não aguentam alguma coisa e se identificam com o blog, podem participar, enviando seu texto pelo e-mail quem.aguenta.blog@gmail.com

Hoje recebemos a colaboração (quase um desabafo) da Ana Clara, moradora da Asa Norte e que faz questão de sempre atravessar na faixa de pedestres. Mas, nem sempre o caminho está livre…

Com a palavra, a Ana:

“Paulistana, recém moradora de Brasília, mais especificamente da Asa Norte, não me conformo com a impunidade da capital federal do país e com a falta de respeito às leis e de bom senso de parte de seus moradores. Vindo de São Paulo, onde, apesar de seu diário caos metropolitano, as leis são melhor fiscalizadas e consequentemente melhor seguidas que aqui, 4 vezes menor e que deveria dar exemplo ao restante do país.

Hoje, 02/12/2013, não aguentei e resolvi denunciar ao ver um carro Fiat 500 placa JIV 7871 estacionado EM CIMA DA FAIXA DA FAIXA DE PEDESTRES NA SCLRN 714/715.
Passei na rua – atravessando na faixa de pedestres, claro – às 9:45 e ali estava o carro estacionado em cima da faixa de pedestres. Resolvi deixar um bilhete ao proprietário sem qualquer noção de respeito às leis básicas de nosso Código Nacional de Trânsito.
Assim o fiz, porémAna Clara foto 2 às 13:15, quando ali passei novamente, o carro continuava estacionado em cima da faixa, quando tirei estas fotos. Liguei no Detran (154) para denunciar o caso. A atendente me disse que não era responsabilidade deles e que eu deveria contatar o Batalhão de Policiamento de Trânsito no 190. Assim o fiz, e o atendente me diz que Brasilia não tem tal batalhão e só registrou a ocorrência após muita insistência minha ao telefone, argumentando sobre o fim do serviço público daquele órgão. Disse que passaria a denuncia à “mesa do Detran na Polícia do DF” e me passou protocolo da denúncia.
No entanto, às 15:00 passo novamente no local (SCLRN 714/715) e o referido automóvel ali continua.
Ana Clara foto 4
Decidi escrever, pois acredito que devemos utilizar um pouco do nosso poder de sociedade civil para denunciar os absurdos da administração do DF e contribuir com uma cidade onde haja respeito às leis.”
Agradeço a contribuição da nossa leitora e me comprometo aqui a tratar mais vezes desse assunto que é realmente irritante em Brasília. Uma outra forma de desabafar nesses casos, é divulgar o assunto no site Multas Sociais, que também serve para desopilar o fígado nesses momentos em que a gente vê uma cena absurda como essa que dura quase um dia inteiro na Asa Norte, considerado bairro nobre de Brasília.
E você? Aguenta?

Estamos adorando Cuba

Tínhamos uma semana de férias, exatos 7 dias, e o destino escolhido foi Cuba. Logo no segundo ou terceiro dia nos perguntávamos por que havia demorado tanto, por que esse destino não foi escolhido antes. Adoramos Cuba.

Em certa medida, ter conhecido Cuba depois de outras experiências, como a África, por exemplo, foi muito bom, porque o exercício de nos despirmos de nossos valores e conceitos, de nossa cultura original, já tinha sido praticado muitas vezes antes e ficou muito mais fácil. E, para Cuba, é extremamente necessário.

Antes de ir, ouvi comentários favoráveis e contrários, indicando que a ilha de Fidel seria o paraíso ou o inferno. Aliás, a conotação religiosa cai bem, porque esse é um dos primeiros pré conceitos que ficam para trás. Não, os comunistas não são necessariamente contra o culto religioso. Depende, claro, de como as coisas são feitas. Se é alienante, não é bom. Como também não é bom o trabalho alienante. Como nunca é bom ser alienado, porque torna a pessoa vulnerável e esta passa a ser oprimida por outro. Mas isso daria um livro e não um texto de um blog. Voltemos às impressões mundanas…

Logo no início do livro Fidel y la religion, que traz conversas de Fidel com o Frei Betto, a citação de uma frase do comandante da revolução de Cuba diz tudo: “Nos casaram com a mentira e nos obrigaram a viver com ela”.

O fato é que Cuba não me pareceu nem o paraíso nem o inferno. Em verdade, a única coisa que posso mesmo dizer é que preciso voltar. Preciso de mais tempo. Ninguém que tenha passado menos de seis meses em Cuba poderá dizer o que é aquele lugar. É preciso tempo para digerir tudo que se vê e construir raciocínios claros e minimamente justos. E, mesmo que se passe anos por lá, se não tiver a capacidade de rever seus valores, compreender novos conceitos, se abrir para enxergar todas as relações humanas sob um novo ângulo, nunca se compreenderá Cuba.

É fácil se impressionar com a moça que lhe pede para comprar um saco de leite em pó para ela, porque tem duas filhas pequenas e o leite que o governo lhe dá não é suficiente para o mês todo. Na verdade, o tipo de leite que ela gostaria de receber e para beber na quantidade que ela gostaria é que não lhe é dado. Ela recebe leite de vaca em uma quantidade reduzida e leite de soja em maior quantidade. Mas não gosta. Também é tentador pegar um pote de xampu que o hotel lhe oferece e entregar para o cubano que fica na porta do hotel pedindo xampu como se isso fosse a coisa mais importante de sua vida.

Por outro lado, é curioso descobrir que os cubanos que querem deixar Cuba podem fazê-lo e que todos os anos quase 950 mil cubanos saem, fazem turismo, e 830 mil voltam para continuar sua vida no comunismo. Ou seja, menos de 13% se estabelecem no exterior. O que não deve ser uma marca muito maior que a média mundial. Vale ressaltar que apenas 0,6% das pessoas que querem sair do país são proibidas pelo governo.* É bom lembrar que isso acontece em qualquer país do mundo. No Brasil, por exemplo, quem não está em dia com as obrigações eleitorais, não pode ter passaporte. Assim como quem está em dívida com a justiça ou sob julgamento. O número 0,6% não me parece algo ao que devemos nos apegar, certo?

Para mim, foi encantador ver o nível de conhecimento geral, de geografia, de história e de lógica de qualquer pessoa nas ruas. Até mesmo do homem que pede xampu.

Eduardo ao lado dos funcionários do governo cubano que, nos restaurantes, cozinham, servem e alegram o ambiente com a autêntica música cubana

Eduardo ao lado dos funcionários do governo cubano que, nos restaurantes, cozinham, servem e alegram o ambiente com a autêntica música cubana

É surpreendente e maravilhoso saber que todos os músicos que você ouve nos bares e restaurantes por onde vai – e lá sempre tem música ao vivo – são pagos pelo governo, pelo ICRT – Instituto Cubano de Rádio e Televisão.

Ou seja, para entender Cuba, esqueça tudo que você sabe da vida até agora. É preciso rever até o valor de um xampu. Um amigo que foi para lá antes de nós, comentou: “em Cuba, todos são formados para ser engenheiros da Nasa, não tem gente com menos conhecimento lá”. E é isso mesmo. Só que ao cara que tem cabeça para ser engenheiro da Nasa foi dito que lavar os cabelos com um sabão inferior é mais grave do que não ter cultura. Para ele, isso passou a ser verdade e toda sua formação cultural deixou de ter valor.

Por isso, para entender Cuba, é preciso, inclusive esquecer o formato de vida que você vive. Olhe a sua volta, pense nos trabalhadores que encontra ao longo do dia: ascensorista, atendente na padaria, garçom, comerciário, artesãos, pintores, bancários… todos eles são funcionários do governo. Uma dessas pessoas comentou conosco sobre os cubanos que trabalham no exterior, o que é um grande orgulho para o país. E, para ela, mais orgulho ainda é o fato deles continuarem sendo funcionários do governo cubano: “A pessoa não consegue emprego em uma empresa privada e vai para outro país. Ele é mandado pelo governo, é um representante do governo. Aqui ou lá, continua sendo um funcionário público cubano”.

Além disso, é relevante pensar que o trabalhador em Cuba não escolhe o emprego ou a profissão pelo salário ou espaço no mercado de trabalho, o que conta é a vocação. Seja engenheiro ou pintor, seu valor social é equivalente e você vai receber do governo o suficiente para viver. Dentro dos princípios não capitalistas, claro. Mas o fato é que, independente da profissão, todos recebem o mínimo para viver, em termos de alimentos, educação, assistência à saúde, etc. Mesmo que não esteja trabalhando. Existe uma taxa de desemprego no país em torno de 6%. Em geral, são pessoas que estão formadas, mas no local onde desejam trabalhar não há emprego no momento. Então, o governo mantém esse cidadão com o mínimo essencial até que haja oportunidades na sua área no local onde deseja.

Enfim, se você está disposto a se despir e tentar compreender comigo esse lugar mágico, vamos aos próximos textos.  Sabendo, desde já, que eu não aguento gente preconceituosa.

*Dados retirados do texto Como as embaixadas ocidentais limitam as viagens dos cubanos, de Salim Lamrani, para Global Research, em 18/11/2013.


placa Cabo da Boa Esperança

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