Estamos adorando Cuba

Tínhamos uma semana de férias, exatos 7 dias, e o destino escolhido foi Cuba. Logo no segundo ou terceiro dia nos perguntávamos por que havia demorado tanto, por que esse destino não foi escolhido antes. Adoramos Cuba.

Em certa medida, ter conhecido Cuba depois de outras experiências, como a África, por exemplo, foi muito bom, porque o exercício de nos despirmos de nossos valores e conceitos, de nossa cultura original, já tinha sido praticado muitas vezes antes e ficou muito mais fácil. E, para Cuba, é extremamente necessário.

Antes de ir, ouvi comentários favoráveis e contrários, indicando que a ilha de Fidel seria o paraíso ou o inferno. Aliás, a conotação religiosa cai bem, porque esse é um dos primeiros pré conceitos que ficam para trás. Não, os comunistas não são necessariamente contra o culto religioso. Depende, claro, de como as coisas são feitas. Se é alienante, não é bom. Como também não é bom o trabalho alienante. Como nunca é bom ser alienado, porque torna a pessoa vulnerável e esta passa a ser oprimida por outro. Mas isso daria um livro e não um texto de um blog. Voltemos às impressões mundanas…

Logo no início do livro Fidel y la religion, que traz conversas de Fidel com o Frei Betto, a citação de uma frase do comandante da revolução de Cuba diz tudo: “Nos casaram com a mentira e nos obrigaram a viver com ela”.

O fato é que Cuba não me pareceu nem o paraíso nem o inferno. Em verdade, a única coisa que posso mesmo dizer é que preciso voltar. Preciso de mais tempo. Ninguém que tenha passado menos de seis meses em Cuba poderá dizer o que é aquele lugar. É preciso tempo para digerir tudo que se vê e construir raciocínios claros e minimamente justos. E, mesmo que se passe anos por lá, se não tiver a capacidade de rever seus valores, compreender novos conceitos, se abrir para enxergar todas as relações humanas sob um novo ângulo, nunca se compreenderá Cuba.

É fácil se impressionar com a moça que lhe pede para comprar um saco de leite em pó para ela, porque tem duas filhas pequenas e o leite que o governo lhe dá não é suficiente para o mês todo. Na verdade, o tipo de leite que ela gostaria de receber e para beber na quantidade que ela gostaria é que não lhe é dado. Ela recebe leite de vaca em uma quantidade reduzida e leite de soja em maior quantidade. Mas não gosta. Também é tentador pegar um pote de xampu que o hotel lhe oferece e entregar para o cubano que fica na porta do hotel pedindo xampu como se isso fosse a coisa mais importante de sua vida.

Por outro lado, é curioso descobrir que os cubanos que querem deixar Cuba podem fazê-lo e que todos os anos quase 950 mil cubanos saem, fazem turismo, e 830 mil voltam para continuar sua vida no comunismo. Ou seja, menos de 13% se estabelecem no exterior. O que não deve ser uma marca muito maior que a média mundial. Vale ressaltar que apenas 0,6% das pessoas que querem sair do país são proibidas pelo governo.* É bom lembrar que isso acontece em qualquer país do mundo. No Brasil, por exemplo, quem não está em dia com as obrigações eleitorais, não pode ter passaporte. Assim como quem está em dívida com a justiça ou sob julgamento. O número 0,6% não me parece algo ao que devemos nos apegar, certo?

Para mim, foi encantador ver o nível de conhecimento geral, de geografia, de história e de lógica de qualquer pessoa nas ruas. Até mesmo do homem que pede xampu.

Eduardo ao lado dos funcionários do governo cubano que, nos restaurantes, cozinham, servem e alegram o ambiente com a autêntica música cubana

Eduardo ao lado dos funcionários do governo cubano que, nos restaurantes, cozinham, servem e alegram o ambiente com a autêntica música cubana

É surpreendente e maravilhoso saber que todos os músicos que você ouve nos bares e restaurantes por onde vai – e lá sempre tem música ao vivo – são pagos pelo governo, pelo ICRT – Instituto Cubano de Rádio e Televisão.

Ou seja, para entender Cuba, esqueça tudo que você sabe da vida até agora. É preciso rever até o valor de um xampu. Um amigo que foi para lá antes de nós, comentou: “em Cuba, todos são formados para ser engenheiros da Nasa, não tem gente com menos conhecimento lá”. E é isso mesmo. Só que ao cara que tem cabeça para ser engenheiro da Nasa foi dito que lavar os cabelos com um sabão inferior é mais grave do que não ter cultura. Para ele, isso passou a ser verdade e toda sua formação cultural deixou de ter valor.

Por isso, para entender Cuba, é preciso, inclusive esquecer o formato de vida que você vive. Olhe a sua volta, pense nos trabalhadores que encontra ao longo do dia: ascensorista, atendente na padaria, garçom, comerciário, artesãos, pintores, bancários… todos eles são funcionários do governo. Uma dessas pessoas comentou conosco sobre os cubanos que trabalham no exterior, o que é um grande orgulho para o país. E, para ela, mais orgulho ainda é o fato deles continuarem sendo funcionários do governo cubano: “A pessoa não consegue emprego em uma empresa privada e vai para outro país. Ele é mandado pelo governo, é um representante do governo. Aqui ou lá, continua sendo um funcionário público cubano”.

Além disso, é relevante pensar que o trabalhador em Cuba não escolhe o emprego ou a profissão pelo salário ou espaço no mercado de trabalho, o que conta é a vocação. Seja engenheiro ou pintor, seu valor social é equivalente e você vai receber do governo o suficiente para viver. Dentro dos princípios não capitalistas, claro. Mas o fato é que, independente da profissão, todos recebem o mínimo para viver, em termos de alimentos, educação, assistência à saúde, etc. Mesmo que não esteja trabalhando. Existe uma taxa de desemprego no país em torno de 6%. Em geral, são pessoas que estão formadas, mas no local onde desejam trabalhar não há emprego no momento. Então, o governo mantém esse cidadão com o mínimo essencial até que haja oportunidades na sua área no local onde deseja.

Enfim, se você está disposto a se despir e tentar compreender comigo esse lugar mágico, vamos aos próximos textos.  Sabendo, desde já, que eu não aguento gente preconceituosa.

*Dados retirados do texto Como as embaixadas ocidentais limitam as viagens dos cubanos, de Salim Lamrani, para Global Research, em 18/11/2013.

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8 Responses to “Estamos adorando Cuba”


  1. 1 Studyaweigh.Com 16 de junho de 2014 às 15:04

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  2. 2 Cristina 18 de fevereiro de 2014 às 3:28

    Na verdade, ao ler muitas coisas sobre Cuba,conhecer muito de sua historia e cultura através de um autentico cubano,morador da ilha há 31 anos, meu noivo, ao passar pela experiência de tentar trazê-lo ao Brasil com carta convite e o governo cubano me pedir para ter a gentileza de declarar um saldo em conta superior a 50.000, ao tentar fazer nosso casamento por procuração, e descobrir tanto o processo caro e burocrático exigido, quanto as custas cobradas exclusivamente pela embaixada cubana…..sua visão e olhar sobre Cuba, e ressalto que falo aqui sem nenhum preconceito, parece um tanto quanto fantasiosa…Através de meu noivo, sua família e seus amigos eu pude ver uma Cuba que não te vi citar aqui. Ao ponto de que agora resta uma duvida…ou talvez você viu muito com seus olhos, e passeou por locais bacanas hospedado em um hotel confortável e não se relacionou o suficiente com os habitantes da ilha e suas realidades, ou então, o que os moradores me passam não é a verdade.Mas essa dúvida, eu só poderei tirar depois que fizer meu tour pela ilha.Embarco dia 08 e ficarei por 50 dias…diretamente com famílias cubanas, aí quando voltar, posso expressar uma opinião!

    • 3 sanflosi 18 de fevereiro de 2014 às 10:46

      Cristina, como eu citei no texto “mesmo que se passe anos por lá, se não tiver a capacidade de rever seus valores, compreender novos conceitos, se abrir para enxergar todas as relações humanas sob um novo ângulo, nunca se compreenderá Cuba”.
      Espero que você consiga enxergar a Ilha despida dos valores capitalistas sob os quais você foi criada, para então ter uma visão mais isenta do cenário. Eu mesma acho que preciso voltar e ficar mais tempo e conviver mais, para não me impressionar tanto com algumas diferenças que às vezes me encantaram e outras vezes me fizeram perder o sono.
      É como aprender um novo idioma. Você nunca vai falar alemão ou inglês se continuar pensando em português. É preciso pensar em inglês para não achar estranho falar “Eu sei nada sobre isso”, no lugar do velho e bom português “Eu não sei nada…”.
      Boa viagem e boa estada. A ilha é linda!

  3. 4 Lucia Agapito 1 de dezembro de 2013 às 13:18

    Adoro seus relatos e adorei ler suas impressões sobre Cuba. Eu também sempre ouvi gente elogiando e gente demonizando a Ilha de Fidel. Como te acho extremamente sensata, vou seguir atentamente os próximos textos… (como se eu perdesse algum né? hehehe)

  4. 5 Sonia Blota 1 de dezembro de 2013 às 13:14

    Quando eu conheci Cuba, descobri muitas coisas também. Adorei o artigo e quero saber mais da sua impressão sobre a ilha.


  1. 1 Yoani, o filme | Quem aguenta? Trackback em 11 de maio de 2015 às 8:16
  2. 2 Cuba musical | Quem aguenta? Trackback em 18 de fevereiro de 2015 às 18:29
  3. 3 Tentando entender Cuba | Quem aguenta? Trackback em 10 de dezembro de 2013 às 9:30

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