Arquivo para março \29\-03:00 2014

Informação inútil

As pessoas deveriam ter mais cuidado com o que fazem com concessões públicas. Ter uma concessão de uma rádio, por exemplo, com o objetivo de informar, mas desperdiçar o tempo do ouvinte com baboseira deveria ser motivo de cassação da concessão. Ah, não pode…. tem a dita liberdade de expressão. Como se expressar abobrinha usando um espectro público fosse um direito.

Enfim, isso é assunto para outro post. O de hoje vai falar sobre uma prática que as emissoras de rádio adotaram agora. Desde que criou o caos aéreo, a mídia tem que alimentar essa lenda urbana e uma forma que ela encontrou é dar o boletim dos voos cancelados, atrasados e no horário. Algo tão útil quanto o boletim da bolsa de valores no jornal da TV no fim do dia, em um mundo de informação em tempo real. Praticamente toda semana vou ao aeroporto voar ou levar alguém que vai voar ou buscar alguém que vem voando. Por vício, ainda ouço essas rádios comerciais ditas de informação. (Mas já estou trabalhando na terapia para ouvir só música.) Quase sempre coincide de ouvir o tal boletim dos voos quando estou indo para o aeroporto. Diz algo mais ou menos assim: “Hoje decolaram x voos do aeroporto Juscelino Kubitscheck, y voos estão atrasados e z foram cancelados”.

Nunca, nunca, nunca em todas essas viagens que me cercam, o tal boletim foi útil. Eu ouço e fico me perguntando: o voo que me interessa está painel online infraeroentre os atrasados, os cancelados ou os decolados? Não se fala nem de qual região, para qual região. Poderia ser: os voos vindos de São Paulo estão atrasados. Nada. Diz x voos atrasados. Quais? Quanto tempo? Nada… Informação absolutamente inútil, que acaba por nem ser informação na verdade. Qual o objetivo? Ocupar o tempo? Preencher 24 horas de programação não deve ser fácil mesmo. Mas conta piada, que é mais útil. Pelo menos, desestressa. Porque falar que tem voo atrasado, voo cancelado, voo saindo, voo chegando, assim, sem mais detalhe, serve apenas para alimentar a sensação de que é necessário falar de quantos voos deram errado, porque são muitos. Mas, normalmente, nem são. É o tipo de coisa que só alimenta a ansiedade do cidadão e não presta serviço nenhum.

Gente que não sabe para que serve seu próprio trabalho, eu não aguento!

Depressão não é tristeza

Sou absolutamente leiga em medicina e estava há tempos querendo tratar do assunto depressão, mas não tinha uma boa forma de apresentar o tema. Na verdade, eu queria mais era fazer um exercício para expor um pouco do conhecimento que tenho, na tentativa de elucidar algumas pessoas ainda mais leigas do que eu. Afinal, eu não aguento mais gente que entende depressão como uma tristeza qualquer. Recentemente, circulou no Facebook um vídeo muito interessante sobre o assunto e me animei a tratar do tema e apresentar o vídeo. Não gosto muito da ideia de um cachorro no papel de depressão, porque, para mim, cães sempre fazem parte da cura dela. Mas, no caso, o papel é bem desempenhado…

De acordo com matéria da revista Super Interessante de junho/2013 (edição 319), assinada por Carol Castro, atualmente 350 milhões de pessoas lutam contra a depressão no mundo. Assim, a possibilidade de você conhecer alguém que tenha esta doença, é muito grande. Por isso, é importante saber lidar com a questão.

É fundamental entender que depressão não é melancolia, não é tristeza, não é a apatia que se dá diante de um fato inesperado da vida. A apatia, a tristeza e a melancolia podem até aparecer como “sintomas” da depressão. A pessoa tende a não reagir, a ter dificuldade em ver as coisas boas da vida, a focar no negativo. Mas se ela tem depressão, necessariamente tem um desequilíbrio químico no cérebro.

Ou seja, é como hepatite, câncer, fibromialgia ou qualquer outra doença temporariamente incapacitante que você queira enumerar. Não dá para virar para uma pessoa com uma dessas doenças, que se encontra prostrada na cama e falar: “olha o relógio, é hora de trabalhar, vai lá!” Não depende da vontade da pessoa cumprir suas responsabilidades ou olhar o mundo da forma como você acha certo que ela olhe.

É fato que a indústria farmacêutica contribui muito para o alto índice de pessoas diagnosticadas com depressão. Já li vários relatos de pessoas que trataram depressão e depois descobriram que tinham outro mal. A mesma matéria da Super Interessante traz depoimentos neste sentido. Mas é fato também que a vida moderna gera, naturalmente, seres humanos estressados e ansiosos. E estes podem ser alguns dos fatores que desencadeiam o tal do desequilíbrio químico da depressão. Vale observar que não é qualquer desequilíbrio cerebral que significa depressão. Existem vários elementos no cérebro e é preciso que alguns deles sejam afetados para a pessoa ter a doença.

Ou seja: não é fácil diagnosticar, assim como não o é tratar. Pessoas que na mesa do bar ou numa conversa de elevador afirmam que o outro está com depressão e já indicam o remédio adequado deveriam ser presas. A sorte é que não é tão fácil conseguir os remédios para este mal e o paciente acaba tendo que consultar um psiquiatra ou neurologista. Fato é que também nem sempre estes acertam na dose e no tipo de medicamento. Do que eu já vi, é quase um jogo de acerto e erro do médico com a cabeça do paciente…

É importante ressaltar nisso tudo que quando você vê seu colega de trabalho que antes era tão falante ficando a cada dia mais triste ou quando um parente seu sofre uma decepção e fica apático, horas sentado à frente da televisão, esperando que se abra a porta da esperança… não necessariamente estas pessoas estão com depressão. Podem estar tristes diante de um tropeção da vida, vão viver o momento e vão se recuperar mesmo sem tratamento médico

A revista Vida em harmonia também trata do assunto na edição de fevereiro/março de 2012, em artigo do psiquiatra Marcelino Henrique de Melo. Ele alerta que “sentimentos como a tristeza, ciúme, remorso, vergonha, desesperança são legítimas manifestações humanas”. Na depressão existem sintomas como a alteração da capacidade de experimentar o prazer, lentidão psicomotora, problemas de sono, diminuição da auto-estima, ideias de culpa ou de indignidade. A gravidade da doença está, entre outros distúrbios causados no organismo, na geração de ideias suicidas. Uma simples tristeza ou prostração não leva a isso, mas a doença sim. Além disso, situações cotidianas estressantes “causam um sofrimento desproporcionalmente maior e mais prolongado nos deprimidos”, explica o psiquiatra.

O grande problema é que identificar a doença não é fácil nem mesmo para quem a tem: “O deprimido geralmente percebe que não está bem, mas nem sempre reconhece que se trata de uma doença e atribui o fato a situações de vida, muitas das vezes demorando a procurar ajuda”, destaca o artigo. No entanto, é preciso procurar ajuda, porque tristeza passa, mas depressão tem que ser tratada.

Insisto: tristeza e prostração são tristeza e prostração. Depressão é outra coisa. Gente que confunde isso, eu não aguento mais!

Justiça cega?

Diz-se que a Justiça tem os olhos vendados para não ver a quem está julgando, permitindo assim que penalize os atos e não as pessoas. Daí que ao presidente do órgão máximo da justiça de um país, caberia julgar fatos e não boatos, interpretações e pessoas. Por isso, me assusta quando vejo que as atitudes do presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, são louvadas por muitos.

Em uma lição pela internet, durante o julgamento da Ação Penal 470, o mestre Edson Flosi alertou pelo twitter:

“Na ditadura, matavam sem provas. Na democracia, mandam para a cadeia”, em 11 out 2012.

“Condenar sem provas é ameaçar a democracia e a liberdade. #STF“, em 14 out 2012.

“Inverteram um princípio do Direito: na dúvida, absolve-se o réu (in dubio pro reu). Agora, ficou assim: na dúvida, condena-se o réu. #STF“, em 15 out 2012. 

“A narrativa não tem provas. Mas condenar sem provas não é coisa nova. Aconteceu na Alemanha de Hitler e na Itália de Mussolini”, em 17 out 2012. 

“Condenar sem provas é o mesmo que condenar por ouvir dizer.”, em 17 out 2012.

“A História se encarregará de absolver um dia os que foram injustamente condenados. #STF #Mensalão #AP470“, em 17 out 2012.

Pena que o Flosi não ficou por aqui para ver quão breve a condenação injusta seria desmascarada.

A questão é que as pessoas comuns, como eu, você, o padeiro e a cabeleireira, podem ter seus ranços pessoais e vibrar com este ou aquele sujeito sendo preso, porque não vamos com a cara dele, não acreditamos na sua honestidade ou desaprovamos sua conduta. Mas um juiz não pode. De acordo com notícia de O Estado de S. Paulo, de 28/2/2014, o próprio Barbosa afirmou que a investigação foi mal feita, não reuniu as provas necessárias. Em março de 2011, de acordo com a matéria, deu-se a seguinte cena: “[Joaquim Barbosa] Dizia estar muito preocupado com o julgamento do mensalão. A instrução criminal, com depoimentos e coleta de provas e perícias, tinha acabado. E, disse o ministro, não havia provas contra o principal dos envolvidos, o ministro José Dirceu. O então procurador-geral da República, Roberto Gurgel, fizera um trabalho deficiente, nas palavras do ministro.”

E mesmo assim, se condenou. Isso é muito grave. Hoje é com eles e você até pode simpatizar com o resultado por não simpatizar com os condenados. Amanhã com quem mais será? Como disse o Flosi, condenar sem provas ameaça a liberdade e a democracia. Para todo mundo. O procurador-geral tinha por obrigação juntar mais provas. Não era simplesmente achar que o clamor das ruas e as manchetes de jornal bastariam e então ele poderia fazer um trabalho meia-boca. Ou ele procurou, mas não encontrou provas. Eu repito, isso é grave, não apenas pelos que estão presos no caso, mas por toda a população que passou a ficar desamparada da justiça. Não ter prova contra você não significa mais que você não seja culpabilizado.

E é tão grave quanto foi a forma que Barbosa escolheu para definir as penas. Algo do tipo: “Bom, eu queria que fulano fosse exilado na Sibéria. O que tem que ter feito para se conseguir esta pena?”. Ele mesmo confessou que foi uma conta de chegada. Quando a justiça, para ser justa, deve agir diferente: analisa-se os crimes cometidos e aplica-se a pena de cada um deles.

No minuto 1 e 20 segundos do vídeo abaixo, Barbosa confessa que foi feito assim mesmo:

Ele alega que a decisão dos outros ministros não é técnica, é simplesmente política, mas confessa ele mesmo ter feito exatamente isso. Ou seja, se desmoraliza sozinho.

Para entender meu ponto e minha preocupação, faça um exercício de abstração: esqueça os nomes dos envolvidos, o partido político e os cargos aos quais estavam vinculados. Pense apenas que houve uma denúncia pelos jornais, mas que na apuração do caso não houve comprovação da denúncia. As pessoas deveriam ser punidas como se culpadas fossem? Lembra do caso Escola Base? É o exemplo mais marcante em nossas memórias hoje, mas não é a única vítima da mídia irresponsável.

Eu gostaria que os demais brasileiros não fossem tão vis quanto o presidente do Supremo Tribunal Federal, que se deixou encantar pela dita grande mídia para cometer um ato descabido e de pouco profissionalismo. Eu não aguento…

Tudo por um furo

Tudo por um furoFui assistir ao filme Anchorman 2 que, na péssima tradução em português virou Tudo por um furo. Tudo bem não chamar o Âncora 2, mas poderia ter alguma relação com o roteiro e chamar Tudo pela audiência, talvez… Enfim, não é para falar do título que abri o texto. Apesar de ter aberto com o assunto. Dilemas… O que me incentivou a escrever foram dois momentos do filme, que podem levar a algumas reflexões.

O primeiro é quando o apresentador resolve entregar ao público a notícia “que eles querem, não a que eles precisam” e eleva brutalmente a audiência na madrugada. A diferença com o Brasil é que nos Estados Unidos o assunto que o povo quer é mensagem patriótica, com aquela visão limitada do mundo – afinal, o mundo são apenas eles -, mostrando o quanto lá a vida é maravilhosa, mesmo que não seja para todos (mas isso não se mostra). No Brasil, o que se entende que o povo quer é antipatriotismo, com mensagens comparando o país com qualquer lugar, sendo que lá sempre é melhor. Mas a questão de fundo é a mesma. Até que ponto, para ter mais audiência, temos que entregar o que o senso comum quer? Será que o senso comum tem informações suficientes para pautar os meios de comunicação?

O outro momento de reflexão é quando o âncora não tem matéria para colocar no ar, entra no estúdio para apresentar o jornal e vê em um dos monitores a imagem de uma perseguição que está sendo transmitida pelo que seriam “as câmeras da CET”. Então, ele manda colocar a imagem no ar e começa a falar em cima, narrando aquele nada… e se empolga e começa a especular sobre quem estaria no carro, os motivos que o teriam levado àquilo, etc. etc. Tudo baseado em nenhuma informação, apenas na imaginação do apresentador. E o público delirando segue aumentando a audiência…

O filme satiriza esses dois aspectos do telejornalismo baseado nas telas estadunidenses, mas poderia bem estar tratando do que assistimos nas TVs comerciais abertas no Brasil. Em que momento e por qual razão jornalismo que presta serviços, induz à cidadania e conscientiza as pessoas deixou de ter espaço para os meninos amarrados nos postes ou ações espetaculosas da polícia filmadas ao vivo?

No mais, o filme é cheio de referências a jornalistas e peculiaridades dos Estados Unidos que talvez não sejam tão bem percebidas por quem não é de lá ou não teve uma vivência com eles. Acaba parecendo mais um pastelão nonsense. Mas ainda acho que vale ir assistir para ver como você se sente quando ele apresenta esses dois momentos tão presentes nas nossas telas. Eu senti que eu não aguento esse jornalismo comercial de baixa qualidade e homogêneo que se vê por aí…

Notícia é o novo, não o cotidiano

Existe um grande problema com a divulgação das notícias: emissor e receptor trabalham com conceitos diferentes. A população em geral acredita que o jornal (seja impresso, de rádio ou televisão) é uma espécie de resumo do que se dá no mundo, é um reflexo do cotidiano. Já para o jornalista, notícia é a exceção. Um exemplo clássico das aulas de jornalismo é: “o cão morder o homem não é notícia; notícia é o homem morder o cão”.

Assim, quando a pessoa vê o noticiário acredita estar tendo um panorama do mundo. Já o jornalista, quando selecionou o que divulgaria, pegou aquilo que é diferente, incomum. E você pensa: “Oras, mas a exceção não é o que faz o mundo”. Exatamente. Os jornais mostram lá 20 ou 30 situações extraordinárias do cotidiano e fazem com que seus consumidores acreditem que elas refletem o caminhar da humanidade.

Vamos exemplificar para ficar mais claro: o pai do aluno o matricula na escola, o aluno vai a escola, a professora também vai, as aulas correm normalmente, no fim do mês a professora recebe seu salário, no fim do ano o aluno – se teve boas notas – recebe seu diploma. Não é notícia. Situação dois: o pai do aluno o matricula na escola, o aluno vai a escola, a professora não vai, quando vai fica no celular e não dá aula, o aluno filma a professora namorando no celular durante a aula. Vira notícia.

Não é difícil perceber, olhando o mundo à sua volta, que acontece muito mais vezes a primeira situação do que a segunda. Mas a “midiatização” da segunda, faz quem recebe a notícia ter a percepção de que ela é que acontece diariamente, em 90% das salas de aula.

Escrevo isso na tentativa de ajudar as pessoas que se deixam manipular pela mídia a receberem as notícias de todo dia com um outro olhar. Porque ser massa de manobra da grande mídia, isso, eu não aguento.

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