Cuba, de novo

Pela segunda vez fomos à Cuba de férias. Como já disse no texto Tentando entender Cuba, em geral, não gosto de repetir destinos, porque o mundo é muito grande e falta muito para ver ainda. Mas Cuba tinha deixado um gostinho intenso de quero mais. E agora não vou resistir a contar mais um pouco do que aconteceu, até porque, desta vez fomos a novos destinos, conhecemos outras partes do país. Merece o registro.x aeroporto José Martí

Apesar da reaproximação diplomática com os Estados Unidos anunciada em dezembro de 2014, ainda não houve mudanças significativas no país. Aliás, pasmem: para os cubanos, o anúncio do restabelecimento de relações com os Estados Unidos não foi a notícia mais importante daquele dia 17 de dezembro. E então, você fica com cara de parvo: Ah, não? Mas foi isso que a mídia destacou! A mídia brasileira não sabe de nada. Copia o que a CNN dá.

Se tivesse ouvido o discurso do Raúl Castro além do do Barack Obama, se tivesse um correspondente em Havana, em vez de só em Washington ou Nova Iorque, teria notado que importante mesmo naquele dia, foi o anúncio de que o acordo previa a libertação de três cubanos apontados pelo governo estadunidense como espiões e presos por lá: Gerardo Hernández, Antonio Guerrero e Ramón Labañino. “La alegría de sus familiares y de todo nuestro pueblo que se movilizó con ese objetivo se extienden a los cientos de Gobiernos solidarios, parlamentos, organizaciones e instituciones que durante estos 16 años reclamaron e hicieron esfuerzos para su liberación”, afirmou Raúl Castro em cadeia de rádio e televisão no dia, de acordo com matéria da Telesur. Nas ruas, um mês depois, a libertação dos cubanos ainda era comemorada.

054 BandeiraE o embargo? Sim, o embargo é um mal que os Estados Unidos fizeram à Cuba e que gerou uma dívida histórica a ser paga. Mas eles estão há mais de 50 anos lá, suportando isso. Os fracos saíram logo na altura da revolução. Quem ficou se mostrou forte por ter sobrevivido a tão cruel política internacional e agora essa mudança pode vir, como não.

Aliás, é triste como quem está de fora tem dificuldade em perceber o que significou o embargo. Outro dia ouvi uma pessoa explicando à outra que em Cuba não se tem acesso a todos os bens de consumo que existem em outros lugares, porque lá é socialista. Errado! Cuba não tem acesso, porque em 1962, vendo o sucesso da nova administração socialista em Cuba, os Estados Unidos iniciaram um processo de isolamento do país, por meio do embargo (ou bloqueo, como dizem os espanhois) para sufocar o regime. O governo americano anunciou ao mundo: Quem -empresas, bancos, governos – fizesse negócios com Cuba, não faria negócios com os Estados Unidos. Como eles naquela altura já eram os maiores consumidores do mundo, as empresas, bancos e governos não socialistas, deixaram de comercializar com Cuba.

Acabou por ser uma boa maneira de nunca sabermos se o regime socialista daria certo ou não. Afinal, eles vivem uma realidade falsa. Será que, Cuba podendo comercializar com outros países não permitiria que seus moradores tivessem melhores condições de vida? Afinal, o país não consegue adquirir bens – ou você acha que os carros muito antigos que circulam por lá são opção pela sustentabilidade? – e isso prejudica até mesmo o desenvolvimento da indústria, além de dificultar o trabalho na área de saúde. Cuba tem, reconhecidamente, um ótimo sistema de saúde pública e forma profissionais da área com excelência, mas tem que fazer um grande esforço para aparelhar hospitais e centros de saúde, pois “é comum ter o dinheiro para comprar os equipamentos de que precisa e não encontrar vendedores disponíveis”, como explica artigo do Diário do Centro do Mundo. Por outro lado, será que tendo acesso aos bens de consumo, o regime socialista teria sobrevivido tanto tempo? Talvez o embargo tenha sido um tiro no pé, dando um ganho na vida útil de um regime que, contaminado pelo contato com os países capitalistas, talvez não vingasse. Nunca saberemos.

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8 Responses to “Cuba, de novo”


  1. 1 Vitor Coelho 15 de fevereiro de 2017 às 16:17

    “Aliás, é triste como quem está de fora tem dificuldade em perceber o que significou o embargo” – Não só que está fora fisicamente, alguns cubanos mais jovens estão “fora” historicamente e não entendem o mal que o embargo causou. Estive recentemente em Cuba e em viagem pelo interior pude perceber isso conversando com pessoas na faixa dos 35/40 anos e que culpavam Fidel pela situação “ruim” que acreditam estar vivendo – não tem noção do que se passa pelo mundo, uma lástima!
    Assim como você, Cuba me deixou com muita vontade de voltar e repetir as férias 🙂

    • 2 sanflosi 15 de fevereiro de 2017 às 18:44

      Exato, Vitor. Essa questão de estar fora historicamente leva as populações a fazerem escolhas equivocadas e que acabam prejudicando a elas mesmas. Que falta faz uma contextualização histórica…

  2. 3 Lucia A 10 de fevereiro de 2015 às 20:10

    Como diz um ditado: “às vezes somos forte porque é a única opção que temos”

    Em 10 de fevereiro de 2015 21:09, Lucia A escreveu:

    > Não consigo comentar no blog 😦 > > > Em 10 de fevereiro de 2015 15:08, Quem aguenta? <

  3. 4 Lucia A 10 de fevereiro de 2015 às 20:09

    Não consigo comentar no blog 😦

  4. 7 Carlos 10 de fevereiro de 2015 às 16:50

    Daqui dos Estados Unidos, vamos ver o que dá. A esperança, como dizem, é a última que morre. Obrigado pelo relato.


  1. 1 Curiosidades para ficar bem em Cuba 2 | Quem aguenta? Trackback em 9 de março de 2015 às 16:48

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