Archive for the 'Cultura diversão e arte' Category

Yoani, o filme

cartaz A viagem de YoaniAssisti ao filme A viagem de Yoani, sobre a blogueira cubana que ganha a vida falando contra a ditadura cubana e a falta de liberdade de expressão em seu país. Vive disso, dentro da ilha que acusa.

O filme não alterou minhas convicções em nada (e acho que também não alterou a convicção de quem está convicto do oposto que eu) e pouco acrescentou em termos de informação.

O dado mais relevante apresentado foi a elucidação do mecanismo de financiamento da blogueira. Até mesmo nas colônias de formigas do Butão comenta-se que ela é financiada pelos Estados Unidos e eu já imaginava que não deveriam ser feitos depósitos mensais em cheques da CIA, a agência de inteligência dos Estados Unidos, na sua conta no Banco de Cuba. O filme mostra que ela recebeu dezenas de prêmios da mídia internacional (sempre ela…) em dinheiro. Um deles foi recebido meses depois de ter iniciado seu blog. Este mesmo prêmio só foi concedido ao escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez 14 anos depois de ter iniciado seu trabalho. Estou falando de Gabriel Garcia Marquez, não do Zé da esquina. E Yoani com seu blog não passa da Maria da esquina. No entanto, ela já recebeu tantos prêmios, que acumulam o valor de 158 anos de salário mínimo cubano. Dura a vida da blogueira…

Vale observar que, assim como não acredito que jornalistas de veículos como a Veja, por exemplo, escrevam suas matérias com facas no pescoço, obrigados a digitar o que não querem, penso que a blogueira também não é refém de um sistema maior que ameaça sequestrar e torturar sua família se ela não fizer o que mandam. Os jornalistas da Veja defendem o mesmo projeto de sociedade que seus patrões por isso fazem com a informação o que fazem e Yoani defende e acredita nas ideias que coloca na internet.

Ou seja, não exageremos. Para os dois lados.

Também achei que faltou contextualização na forma como o filme apresenta as negativas que a blogueira teve para sair do país. Eles tratam o assunto como se isso fosse uma característica só de Cuba e fixam-se apenas no caso Yoani. Como já relatei, em viagem a Cuba conversei com muitos cubanos que já saíram do país de forma regular ou tiveram parentes que o fizeram sem nenhuma dificuldade com o governo. Fizeram seu turismo, voltaram e lá estão. Os cubanos que querem deixar a ilha podem fazê-lo e todos os anos quase 950 mil saem. Destes, 830 mil voltam. Significa que menos de 13% se estabelecem no exterior. O que não deve ser uma marca muito maior que a média mundial. Vale ressaltar que apenas 0,6% das pessoas que querem sair do país são proibidas pelo governo, de acordo com a Global Research. Além desse tipo de informação, faltou ao filme observar que o impedimento de saída dos países acontece em qualquer lugar do mundo. Ou você acha que passa na imigração e apresenta seu passaporte quando vai viajar para quê? No Brasil, quem não está em dia com as obrigações eleitorais, não pode ter passaporte. Assim como quem está em dívida com a justiça ou sob julgamento fica impossibilitado de sair, mesmo que tenha passaporte. E cada país tem suas regras. Faltou ao filme esclarecer os motivos que levaram os pedidos de saída de Yoani a serem negados. Só assim conseguiríamos formar um juízo de valor sobre ser ou não perseguição à pobre (nem tanto) blogueira.

Voltando ao que o filme acrescentou, além desta informação sobre do que vive Yoani, o que mais me chamou atenção foi o quanto Yoani se assemelha à Marina Silva: em seu jeito messiânico, em suas roupas, em sua postura, em seu aspecto físico, na cara de vítima que sustenta, na trajetória de vida que é contada, enfim, em absolutamente tudo. Parece um padrão de comportamento.

E, assim como já falei sobre a política brasileira Marina Silva, Yoani também não tem estofo. Não resistiria a um mês de embate político sério, como Marina não sobreviveu quando se tornou cabeça de chapa nas eleições presidenciais de 2014.

Na minha opinião, o filme, que quer ser um documentário, poderia ter seus recursos mais bem aproveitados. Poderia ter se mantido neutro, como se propõe, mas ter sido mais consistente na divulgação de argumentos, tanto da blogueira quanto dos que a criticam, que aparecem no vídeo como uma juventude histérica e inconsistente.

Gente que perde oportunidades, eu não aguento.

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Cuba além de Havana e Varadero

O básico para fazer em Cuba é a capital, Havana, e uma praiazinha, porque ninguém é de ferro. Afinal, a ilha é no mar do Caribe e isso não é qualquer coisa. Como Varadero é a praia mais próxima de Havana, o destino mais óbvio é lá. Seguindo essa regra, na primeira vez que fomos a Cuba, conhecemos exatamente Havana e Varadero.

Agora, em janeiro de 2015, voltamos para Havana e conhecemos também Santa Clara, Remédios e Cayo Santa María, tudo na província Villa Clara. Ainda falta muito, mas já deu para satisfazer mais nossa sede de compreensão e conhecimento sobre a ilha dos Castro. 091 Villa Clara

Santa Clara é a terra de Che Guevara. Lá ele liderou o Exército Rebelde na tomada do trem blindado, em 29 de dezembro de 1958. A última grande ação da revolução, que permitiu a chegada ao poder em 1 de janeiro de 1959, libertando o povo da ditadura de Fulgêncio Batista.

Para marcar a importância da relação entre o lugar e Che, é lá que se encontra o mausoléu com os restos mortais do herói argentino. Fica ao lado de um museu com peças de vestuário e objetos do cotidiano de Che Guevara, ambos sob um enorme monumento à oeste do Parque Vidal. 044 Santa Clara Che Na mesma cidade também estão preservados alguns vagões do trem blindado, que carregava mais de 400 homens e um poderoso arsenal de armamentos com canhões, bazucas, lança foguetes, metralhadoras, fuzis e inúmeros projéteis. Eles estão no exato local onde o trem foi atacado em uma batalha de uma hora e meia que foi decisiva para o sucesso do Exército Rebelde. 277 assalto ao trem blindado Santa Clara é Che Guevara na veia. Se você admira o cara, vá. Se não admira, leia mais. Mas é também muita agitação cultural. Lá fica a segunda universidade mais famosa de Cuba: Universidad Central Marta Abreu de las Villas. A primeira é a Universidad de La Habana. Com isso, a cidade tem muitos jovens e inquietos universitários, que fazem da vida noturna uma mistura de música, teatro e dança. 042 a cultura em Santa Clara Estando em Santa Clara, você consegue pegar um ônibus até Remédios, da companhia Víazul, e, em menos de uma hora chegar a um dos povoados mais antigos de Cuba, onde fica o bar mais antigo do país em atividade contínua: El Louvre, inaugurado em 1866. Em algumas horas vo060 Remédios restaurante mais antigocê anda a cidade toda, vê a arquitetura colonial, desfruta de um ambiente tranquilo numa pequena cidade pacata do interior.

Tanto em Santa Clara quanto em Remédios, é possível comer em restaurantes destinados ao público local com mais facilidade do que em Havana. Explico: em Cuba temos duas vidas financeiras paralelas – a dos turistas e a dos moradores locais. Contei aqui que isso significa haver duas moedas, o CUC dos estrangeiros e o CUP dos locais. Assim, a maioria dos lugares que frequentamos é para turista ver. Já cobra logo em CUC e quase não se vê cubano como cliente. Daí surgem as várias lendas sobre como os cubanos vivem mal na própria ilha. Com o tempo, passaram a ser permitidos os Paladares, que são restaurantes, instalados nas casas de cubanos, que servem comida típica local, com ares mais caseiros. No entanto, a maioria dos frequentadores ainda é estrangeira. 089 La Toscana Santa Clara

Em Villa Clara conhecemos alguns restaurantes como o Portales de La Plaza (em Remédios) e o La Toscana (em Santa Clara) frequentados por moradores locais. Nesses estabelecimentos, inclusive, a conta veio em CUP e tivemos que pedir a gentileza do garçom converter para podermos pagar com a única moeda que tínhamos, CUC. Para surpresa do leitor mais ingênuo, a comida era ótima, da mesma qualidade que nos restaurantes “para turista ver”. A diferença é que o prato para os locais sai bem mais barato e o serviço é menos cheio de frufru.

Na região, há ainda Trinidad, na província vizinha de Sancti-Spiritus. Não coube no nosso roteiro, mas parece bastante interessante, uma cidade colonial maior e com mais edifícios preservados do que Remédios. Comparando para quem é do Centro-Oeste do Brasil ou conhece a região: Remédios é mais Pirenópolis, Trinidad é mais cidade de Goiás. Fomos a Remédios, pelo mesmo motivo que as pessoas que estão em Brasília, em geral, vão a Pirenópolis: é mais perto.

Nossa última descoberta nessa viagem foi Cayo Santa María. Cayos são as ilhas menores que cercam a grande Ilha de Cuba. Para chegar a Santa María, foi construído El Pedraplén: 48 km de estrada em forma de recifes artificiais que ligam as Cayerías del Norte (seria o arquipélago do Norte). Até Cayo Santa María são 45 pontes na estrada, que permitem o escoamento do mar em meio aos recifes. É uma mistura fantástica de obra da natureza com obra dos homens. Em Cayo Santa María, assim como em Varadero, uma sequência de resorts acolhe os turistas com ótima hospitalidade e grande oferta de serviços e passeios. Dias para não fazer nada, apenas escolher entre água doce ou água salgada, bar da piscina ou bar da praia, Mojito ou Daiquiri, churrascaria ou restaurante japonês, massagem relaxante ou energizante… 118 Cayo Santa María Mas hotel é assunto para outro post, porque tanta informação num só, nem eu aguento.

Cuba musical

Ir a Cuba é fazer uma viagem pela história e pela música. A ilha é extremamente musical. Sons que mexem com a gente, que balançam o corpo, que empolgam os corações mais durões. Nos hoteis, bares e restaurantes mais turísticos sempre é possível apreciar o som de algum grupo musical do ICRT – Instituto Cubano de Rádio e Televisão, como eu contei no texto Estamos adorando Cuba.

x20150111_223945Desta vez tivemos a oportunidade de ir a um show daquele que é o símbolo musical cubano: o grupo Buena Vista Social Club. O Club Social Buena Vista era uma agremiação da cidade de Havana, frequentada por negros, fundada em 1932 e muito famosa nas primeiras décadas do século XX, como conta o colaborador da Prensa Latina, Rafael Lam, no artigo A verdadeira história de Buena Vista Social Club.

O show que assistimos foi na Sociedade Cultural Rosalía de Castro, no centro de Havana. Um amplo restaurante em um casarão antigo. Por CUC 50 (equivalente a US$ 50) você toma três drinques, tem jantar completo e se acaba a ouvir música boa e interagir com os músicos do Buena Vista. Imperdível!

A principal estrela da noite era Joana Bacalao. O que vimos, foi mais ou menos igual ao que se pode ver nesse vídeo abaixo, gravado há quase um ano atrás e publicado no YouTube. O local é exatamente o mesmo.

EC e Juana BacallaoE, claro, não íamos deixar de fazer nossas fotos da grande diva cubana, às portas dos 90 anos de idade. Sua brilhante carreira garantiu a ela a Distinção pela cultura nacional, com a medalha Alejo Carpentier, e um disco de ouro no Canadá.

Quem não tem oportunidade de ir até lá para ver, pode tentar encontrar o filme que leva o nome do grupo musical, Buena Vista Social Club, dirigido por Win Winders, que mistura música e história, de uma forma muito leve, como a boa música cubana. Não é sem motivo que o filme foi vencedor de 10 prêmios internacionais. #FicaaDica

DVD Buena Vista Social Club

Tudo por um furo

Tudo por um furoFui assistir ao filme Anchorman 2 que, na péssima tradução em português virou Tudo por um furo. Tudo bem não chamar o Âncora 2, mas poderia ter alguma relação com o roteiro e chamar Tudo pela audiência, talvez… Enfim, não é para falar do título que abri o texto. Apesar de ter aberto com o assunto. Dilemas… O que me incentivou a escrever foram dois momentos do filme, que podem levar a algumas reflexões.

O primeiro é quando o apresentador resolve entregar ao público a notícia “que eles querem, não a que eles precisam” e eleva brutalmente a audiência na madrugada. A diferença com o Brasil é que nos Estados Unidos o assunto que o povo quer é mensagem patriótica, com aquela visão limitada do mundo – afinal, o mundo são apenas eles -, mostrando o quanto lá a vida é maravilhosa, mesmo que não seja para todos (mas isso não se mostra). No Brasil, o que se entende que o povo quer é antipatriotismo, com mensagens comparando o país com qualquer lugar, sendo que lá sempre é melhor. Mas a questão de fundo é a mesma. Até que ponto, para ter mais audiência, temos que entregar o que o senso comum quer? Será que o senso comum tem informações suficientes para pautar os meios de comunicação?

O outro momento de reflexão é quando o âncora não tem matéria para colocar no ar, entra no estúdio para apresentar o jornal e vê em um dos monitores a imagem de uma perseguição que está sendo transmitida pelo que seriam “as câmeras da CET”. Então, ele manda colocar a imagem no ar e começa a falar em cima, narrando aquele nada… e se empolga e começa a especular sobre quem estaria no carro, os motivos que o teriam levado àquilo, etc. etc. Tudo baseado em nenhuma informação, apenas na imaginação do apresentador. E o público delirando segue aumentando a audiência…

O filme satiriza esses dois aspectos do telejornalismo baseado nas telas estadunidenses, mas poderia bem estar tratando do que assistimos nas TVs comerciais abertas no Brasil. Em que momento e por qual razão jornalismo que presta serviços, induz à cidadania e conscientiza as pessoas deixou de ter espaço para os meninos amarrados nos postes ou ações espetaculosas da polícia filmadas ao vivo?

No mais, o filme é cheio de referências a jornalistas e peculiaridades dos Estados Unidos que talvez não sejam tão bem percebidas por quem não é de lá ou não teve uma vivência com eles. Acaba parecendo mais um pastelão nonsense. Mas ainda acho que vale ir assistir para ver como você se sente quando ele apresenta esses dois momentos tão presentes nas nossas telas. Eu senti que eu não aguento esse jornalismo comercial de baixa qualidade e homogêneo que se vê por aí…

Cuba turística

Existem muitos destinos diferentes em Cuba. Tem história no norte e no sul da ilha, tem lagos, montanhas e prados maravilhosos – onde se encontram até vinícolas – no centro, tem praia para todos os gostos, sempre azuis e paradisíacas. Vale lembrar que estamos na região do mar do Caribe ou das ilhas Caraíbas, como dizem os amigos de Portugal.

Como tínhamos míseros 7 dias, fizemos o basicão, que se resume à capital do país, Havana, e Varadero, uma península com 22 quilômetros de praias, a cerca de duas horas da capital, na província de Matanzas. Não vou aprofundar sobre Varadero, porque ficamos três dias dentro do hotel, que é um resort do estilo coma e beba o quanto quiser, inclusive do frigobar do quarto, e as atrações são: praia, piscina, restaurantes, apresentações culturais… Aliás, em Varadero, hospedagem desse tipo é o que mais tem. Para encontrar hotéis em qualquer um dos destinos de Cuba você pode usar o site de reservas Trivago. Lá você tem a lista dos principais sites de reserva de cada hotel e é possível conferir, inclusive, a opinião de quem já se hospedou.
Em Havana, a primeira dica é ir até o centro, conhecido como Havana Vieja e caminhar, caminhar, caminhar… são ruas antigas, com casas históricas, “do tempo da colônia”, como diria um moçambicano. O centro está em restauração total. Há muitos homens trabalhando em todos os lados. Mas, nada que atrapalhe o turismo. O que mais atrapalha, na verdade, é a falta de informação. Por exemplo, mesmo nos hotéis de redes internacionais onde, normalmente, na recepção você encontra folhetos e informações de pontos turísticos e mapas da cidade, nada existe. Conseguimos um mapa, pedindo a uma pessoa da recepção e nada mais. Então, tem que ir preparado para desbravar e arriscar horários e rotas. Para informações turísticas oficiais, o Portal Cuba – Turismo é o que encontrei de mais completo, além disso você pode visitar os centros de informação turística Infotur, em alguns pontos da cidade.
Palacio de Artesanía

Palacio de Artesanía

O ponto de partida pode ser o Palacio de Artesanía, que fica bem em frente ao edifício da Polícia Nacional Revolucionária. Lá dentro há um café e diversas lojas de… artesanato, como não podia deixar de ser com esse nome! Bolsas e carteiras de couro, acessórios, bijuterias, roupas, objetos de decoração em madeira… cada loja trabalha com um tipo de material. No térreo há também uma loja de bebidas e petiscos como salgadinhos e chocolates para levar. As bebidas vão do café ao rum, um dos principais produtos de exportação de Cuba.

Eu não lembro de ter visto no Palacio venda do famoso charuto, também importante para a economia cubana. Mas, curiosamente, foi lá que comprei os tais. Ou, quase lá… na cooperativa, como dizem. Sinceramente, eu não consegui entender ainda o grau de legitimidade da tal cooperativa. Mas, segundo nos informaram, haveria autorização do governo cubano para os funcionários das fábricas de tabaco formarem cooperativas e comercializarem o produto. Enfim, a cooperativa que eu fui funciona na casa de uma família, em um edifício ao lado do Palacio da Artesanía. Ruim o charuto não deve ser. Sem contar que valeu só por eu ter entrado e sentado no sofá e conversado com uma família cubana. Na dúvida, compramos também charutos em uma loja oficial da Cohiba, uma das principais marcas do país. Foi divertido que o senhor que me conduziu à tal cooperativa é uma espécie de chefe dos guias que ficam em frente ao Palacio de Artesanía abordando os turistas. Ele organiza a galera, entende a característica de cada turista, tem a fala mansa e, como sempre, conhecimento de cultura, história, geografia… Fomos lá por dois dias e acabamos nos entretendo muito com o cara, o que justificava também se deixar cair na conversa dele.

No El Patio, com a Catedral ao fundo

No El Patio, com a Catedral ao fundo

Seguindo pela rua Cuba, que é a própria do Palacio de Artesanía, você vai encontrar a Catedral de San Cristóval de La Habana, na Plaza de la Catedral. Assim como a Catedral, construída no século XVIII, os edifícios da praça têm estilo barroco. Em um deles funciona o simpático restaurante El Patio. Ao lado, tem outra loja grande de artesanato variado.

Em todas as ruas da região, há prédios antigos onde ficam alguns comércios e também moradias dos cubanos. É curioso andar pelo centro à noite e ver a sala, cuja janela dá direto para a rua, com a televisão ligada na novela brasileira.

Capitólio 2Outro ponto de interesse em Havana Vieja é o Capitólio Nacional, uma construção imponente, da segunda década do século XX, muito parecida com o Capitólio de Washington, D. C, nos Estados Unidos da América. Já foi sede do governo cubano, Biblioteca Nacional e Academia Cubana de Ciências. Atualmente, está fechado para reforma. Logo atrás, fica a fábrica de Tabaco Patargás, também fechada para reforma. Mas a lojinha funciona.
No sentido oposto, seguindo pela rua Obispo, fica a Plaza de Armas. Na primeira praça da cidade é possível encontrar diversas barraquinhas de antiguidades, discos de vinil e livros usados. Na mesma praça fica o Museu da Cidade, abrigado na antiga casa de capitães generais cubanos, que foi também palácio presidencial. No museu é possível ver móveis e utensílios de séculos passados, além da galeria de fotos dos capitães que por lá passaram.
Em pontos mais afastados, mas acessíveis por meio de breves corridas de táxi, ficam o Malecón e a Plaza de La Revolución. O Malecón é um grande calçadão à beira do mar. É uma parte aterrada da cidade e não tem praia entre as ruas e o mar, apenas um muro onde batem as ondas, muitas vezes ultrapassando os limites do concreto e molhando os desavisados que caminham por lá.
Malecón visto da janela do hotel

Malecón visto da janela do hotel

Do próprio Malecón, seguindo pela rua Paseo, em uma caminhada de meia hora por quadras residenciais de arquitetura colonial, chega-se à Plaza de La Revolución, um dos cenários mais conhecidos de Cuba no exterior, por ter aparecido sempre repleta de cidadãos assistindo aos longos discursos de Fidel Castro. É uma enorme praça de concreto, rodeada de edifícios, onde em dois deles constam as imagens de Che Guevara e Camilo Cienfuegos, dois dos principais revolucionários que, ao lado de Fidel, libertaram o país da ditadura de Fulgêncio Batista. Em frente à praça fica o Memorial a José Martí, político e jornalista criador do Partido Revolucionário Cubano (PRC) e grande mártir da independência de Cuba com relação à Espanha.
Ao fundo Che e Cienfuegos. Na frente, Castro. Não o Fidel, outro Castro

Ao fundo Che e Cienfuegos. Na frente, Castro. Não o Fidel, outro Castro

Tá difícil

Ir ao cinema em Brasília está realmente difícil.

Em 15 de fevereiro, escrevi o texto Programa errado, contando meus dissabores em uma ida ao cinema, mesmo depois de ter escolhido hora e local a dedo para evitar os mal educados. Mas eles estão por toda parte e estavam lá.

Fiquei um bom tempo sem ir ao cinema.

No último mês, fui duas vezes. Em duas sessões não muito cheias, de documentários, nada blockbusters, que costumam atrair todo tipo de gente. Minha expectativa era encontrar uma plateia pequena e selecionada. Era pequena. E selecionada entre os piores tipos do mercado.

Segui o conselho que meu amigo David deu no primeiro post que escrevi reclamando do falatório no cinema: “Nada que um retumbante ‘shhhh’ não resolva!” Pois devo dizer que os retumbantes shhh não resolveram nada.

No primeiro filme, o camarada que falava, quando ouviu o shhh, soltou uma larga risada e continuou a falação. No segundo, as três mulheres que conversavam como se estivessem tomando chá no sofá de casa, nem perceberam, continuaram o papo naturalmente, sem esboçar qualquer reação.

Fico na dúvida se é um fenômeno da atualidade, que tem se dado em todo lugar, ou se é característica de Brasília.

O fato é que já não aguento mais ir ao cinema por aqui. Será que conseguirei ir em outros lugares?

Classe média

Taí uma coisa que eu não aguento. Sem restrições. Essa classe média brasileira que, em geral, são ricos com uma certa vergonha cristã de se assumirem como tal. Essa gente cansada, que clama por justiça, mas incapaz de tirar um milésimo do que tem em seus cofres para ver feita a justiça social. Essa gente que estudou em escola de rico, ops, de classe média, e que nas aulas de história não viu a opressão secular das camadas menos favorecidas economicamente, não entendeu a exploração do trabalhador, não aprendeu sobre exclusão social.

E tudo isso me faz lembrar a música Classe Média, de Max Gonzaga, apresentada em um festival de 2005, mas que será atual enquanto houver a classe média sofrida:

Vale também ver a fantástica animação feita para a música no blog Tecedora.

Uma leitura surpreendente do começo ao fim

Capa 11o mandamento Minha experiência com a leitura é muito vasta. Adoro ler e, em geral, não tenho preconceitos. Todos os gêneros e temas me interessam. Também não me assustam os grandes volumes. Um livro de 600 páginas seria como ler 3 de 200 ou 6 de 100. E eu já demorei mais tempo para ler um livro com duas centenas de páginas muito chatas do que para devorar um com mais de meio milhar de páginas, que é o que vou contar agora.
Ganhei O 11º mandamento no final do ano. Presente da minha querida tia Lourdes pelos meus 40 anos. No momento que ganhei não pude começar a ler imediatamente, porque estava fazendo cursos e tinha leituras de trabalho que eram meio obrigatórias e tiveram prioridade. Ainda bem que fiz a escolha pela obrigação primeiro. Porque depois que peguei o livrão para ler, suas 626 páginas foram devoradas. Qualquer momento que eu tinha, dedicava a ele. Qualquer mesmo. Quero dizer que, andando no Shopping, nos momentos de subir e descer na escada rolante, abria o livro e devorava algumas linhas.
A história se passa quase toda na África, mais precisamente em Adis Abeba, capital da Etiópia. Há também uma parte nos Estados Unidos e algumas cenas e lembranças da Índia. O romance tem como pano de fundo a medicina e a luta pela libertação da Eritreia.
O livro conta a história de uma família durante mais de meio século. O narrador é o personagem principal, filho de uma freira indiana que vive em Adis Abeba. O pai? O médico cirurgião Thomas Stone, com quem a freira trabalha como enfermeira.
A capacidade de contar escondendo e de revelar os fatos na medida e no tempo certos fazem do autor Abraham Verghese um dos principais romancistas atuais. Na capa do livro, consta o selo: 1 milhão de livros vendidos nos Estados Unidos. Na orelha, o elogio: “Comparado aos maiores romancistas do século XIX e a contemporâneos do calibre de Salman Rushdie e Ha Jin, o médico e escritor Abraham Verghese nos brinda com este romance de estreia épico, em que o desenlace inesperado é apenas um dos muitos momentos dramáticos que polvilham a trama”. Tudo absolutamente confirmado ao longo da leitura.
No final, encontrar uma bibliografia substancialmente ampla para um romance, faz perceber o quanto o autor se dedicou para trazer os dados históricos da África e técnicos da medicina da forma mais acessível possível para o autor leigo.
Para quem gosta da África é imperdível. O estilo é muito próximo de O Anjo Branco, que também tem romance, medicina, história e África em uma obra de muitas páginas, que sempre é devorada por quem a toca. Para quem se interessa pela medicina, é uma lição. Para os leitores em geral, é cachaça pura. Para quem não gosta de ler, é um ótimo começo.

Matando a curiosidade, aqui o 11º mandamento: “Não operarás um paciente no dia de sua morte”.

Aí eu pergunto: quem aguenta ler um livro de 626 páginas? Se for bom como O 11º mandamento, basta saber ler.

Serviço:
Nome da obra: O 11º mandamento
Autor: Abraham Verghese
Editora no Brasil: Companhia das Letras
Valor médio da obra em papel: R$ 54,00
Valor médio da obra digital: R$ 38,00

P.S. (17/3/13): O amigo ‘nando Aidos complementa que em Portugal a mesma obra tem o nome Destinos Entrelaçados e pode ser encontrada em torno de € 23, na versão em papel.

Programa errado

Resolvi ir ao cinema na Quarta-Feira de Cinzas. Peguei a sessão das 13h, de O lado bom da vida. Minha expectativa era encontrar o menor número de pessoas possível. Ultimamente, as salas de cinema até tentam ajudar, exibindo vídeos de animação bem humorados com o objetivo civilizatório, onde avisam: desligue o celular, não converse durante a sessão, não balance a cadeira da frente com seus pés e outros. Mas, ainda assim, os seres humanos continuam não atendendo a todas as solicitações. Então, evitei pegar uma matinê de sábado no Pier 21, onde a frequência (adolescentes. Muitos deles.) por si só indica que qualquer filme a ser escolhido não será visto em paz. Fui ao cinema às 13h, da Quarta-Feira de Cinzas.

Minha expectativa de encontrar poucas pessoas se confirmou. Quando apagaram as luzes, olhei em volta e havia muito menos de 10 pessoas na sala. Alguns ainda chegaram já com as luzes apagadas, mas ainda antes do filme. Perdoados. E não passamos de 10 ao todo.

Mas vejam a minha sorte. Atrás de mim, logo atrás, nas cadeiras imediatamente depois da minha, sentaram duas moças faladeiras. Falar nos momentos antes do filme, durante propagandas e trailers, eu acho normal. Considero um momento de climatização.

O filme começou e a conversa não parou. Falavam de tudo. Comentavam cada cena. Comparavam os personagens que iam surgindo com pessoas conhecidas suas, sugeriam melhores enquadramentos para o diretor, comentavam a iluminação e, claro, falavam de coisas que nada tinham a ver com o filme, mas tinham vindo à mente naquele momento.

Esperei passar 15 minutos, como tolerância para que elas notassem que não estavam na sala de casa. A conversa continuou. Olhei para trás, como que procurando de onde vinha aquele som irritante. A conversa parou. Por não mais do que cinco minutos. Voltou na mesma intensidade, com a mesma animação e diversidade de temas.

Tentando me concentrar no filme, não pude evitar de pensar: são aquele tipo de gente que acha que seu eu mandar se calar, vou estar impedindo sua liberdade de expressão. São pessoas que não percebem que o direito delas termina quando começa o dos outros. Acham sempre que o delas ainda não parou de começar…

No meio do filme, como a sala estava bem vazia, abri mão do meu lugar estrategicamente escolhido antes de entrar na sala e fui três fileiras para frente, mais à direita, para sair da direção da conversa. Assim, o bate-papo se transformou em um cochicho distante e consegui prestar mais atenção ao filme.

Ao final da exibição, fui ao banheiro. Lá estavam as duas. Conversando animadamente. Uma lavando as mãos, a outra ainda dentro da cabine. Mas a conversa fluía naturalmente. Então, tive a certeza de que tinham escolhido o programa errado. Deveriam ter ido a um café, onde poderiam simplesmente sentar e conversar, matar saudades, colocar fofocas em dia… e sem nenhum filme para atrapalhar.

Mas foram ao cinema e eu tive que aguentar.


placa Cabo da Boa Esperança

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