Posts Tagged 'jornalismo parcial'

Você conhece Ayaan Hirsi Ali?

Eu gosto de lembrar às pessoas que o noticiário que chega até elas não é nem de longe um retrato da realidade. Já escrevi sobre isso aqui e vou continuar reforçando sempre que possível. Causa incômodo as pessoas acharem que sabem o que se passa no mundo porque lêem jornal todo dia, uma revista semanal e assistem telejornal todas as noites ou ouvem rádio ao longo do dia.

2015-06-23 09.33.30Recentemente, a amiga Patricia Pires me emprestou o livro Infiel, da Companhia das Letras. Então, eu descobri a existência Ayaan Hirsi Ali. Uma mulher que nasceu na Somália, viveu na Etiópia, na Arábia Saudita, no Quênia e na Holanda, onde recebeu a cidadania e foi eleita parlamentar. Na adolescência, ela tinha sido muito religiosa, mas sempre questionou algumas interpretações do Alcorão (o livro sagrado de sua religião mulçumana), que levavam as mulheres à submissão, mutilação sexual e espancamentos brutais. Seus questionamentos fizeram com que ela se afastasse da religião como estava posta em sua cultura. O que ela nunca deixou foram seus valores de defesa das mulheres e pela reforma do islã.

Como deputada na Holanda passou a lutar para que as violações dos direitos humanos não fossem permitidas e acabou por ser condenada à morte pelo fundamentalismo islâmico. O cineasta Theo Van Gogh, que fez o filme Submissão em parceria com ela, foi assassinado de forma brutal. Ela viveu anos sob a tutela do departamento de segurança holandês, com uma parafernália de segurança e guarda-costas similar à da família real, e acabou por deixar o país. O primeiro-ministro Jan Peter Balkenende foi destituído do cargo e foram convocadas novas eleições devido às questões políticas envolvendo Ayaan. E pensar que a gente aqui do outro lado do oceano Atlântico não costuma nem saber o nome do primeiro ministro da Holanda…

Ayaan ensina que é possível adaptar a fé e examiná-la criticamente. Ayaan também ensina que nosso noticiário não nos conta o que se passa no mundo; tem um viés, uma escolha, um filtro. Os parlamentares estadunidenses tossem e aqui no Brasil isso vira notícia. Ayaan passou por tudo isso que narrei e muito mais e eu nem sabia que ela existia. A sugestão que fica é: leiam o livro.

Ver o mundo pelo filtro da midiona, eu não aguento!

Anúncios

A verdade tem muitos ângulos

Eu sou Malala

Se tem uma coisa que eu não aguento é gente que, em tempos de internet e possibilidades de vários caminhos para se obter informação, se conforta com as informações que chegam até elas e acham que sabem das coisas buscando o caminho mais fácil e sendo passivas no conhecimento que adquirem.

Faço tudo para não cair nessa preguiça, de me achar informada só porque liguei a TV e o canal que estava lá por hábito me disse isso ou aquilo. Já falei aqui que o conceito de notícia para quem a produz e para quem a recebe, em geral, é diferente. Quem recebe tem a expectativa de ter um resumo do que se dá no mundo, quem emite, em geral, fala do que é inédito, diferente, não do que é um resumo do mundo. Também já falei que o jornalismo que presta serviços, induz à cidadania e contribui para a conscientização das pessoas já não existe mais, infelizmente. 

Para não me deixar levar pelos interesses defendidos pela dita grande mídia (sim, os jornais, TVs e rádios defendem interesses, um projeto de sociedade, mas isso é assunto para outro texto…), eu procuro sempre a informação por novos ângulos, não me contento em ver apenas o que chega fácil para mim. A midiona ocidental tem uma voz hegemônica, mostra sempre o mundo pelo mesmo ponto de vista, mas, que outras formas de ver as coisas estarão ocultas nessa apresentação parcial?

Depois de ler o livro Eu sou Malala, por exemplo, passei a entender de forma bem distinta os ataques que têm havido no Paquistão e a convivência com o Talibã imposta àquele povo. Hoje, os jornais falam que o governo do Paquistão atua com o apoio dos Estados Unidos para libertar o país da opressão do grupo Talibã, que defende o fundamentalismo islâmico.

Ó, como são bons os americanos!, pensarão os mal informados. Mas quem não se conforma com a visão ocidental de tudo que acontece na região do Paquistão há décadas, quem não se contenta com noticiário de CNN, Folha, Globo… sabe que não é bem assim. Se os Estados Unidos atuassem por cem anos pela paz – e não fazem isso nem por um dia, na verdade –, ainda assim, não se redimiriam pela culpa histórica por tudo que está acontecendo hoje no Paquistão.

Nós nos acostumamos a ouvir a história Talibã-Paquistão por quem chegou lá depois do Talibã e com valores baseados na cultura ocidental cristã. Ouvir a história sob a ótica de uma nativa, criança ainda quando os Estados Unidos sofreram o ataque de 11 de setembro de 2001 e adolescente quando foi alvejada com uma bala no crânio por defender o direito de meninas a estudar em seu país, faz toda a diferença, mostra um novo Paquistão, o paraíso que aquilo já foi um dia, apresenta uma nova relação com o Talibã e uma outra participação dos Estados Unidos em toda a história.

Quer saber mais? Leia a história da menina Malala, porque ouvir a história por um só ângulo, em pleno século XXI, não dá para aguentar.


placa Cabo da Boa Esperança

Digite seu endereço de e-mail para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por e-mail.

Junte-se a 173 outros seguidores

dezembro 2017
S T Q Q S S D
« nov    
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Tudo que já aguentamos por aqui

Sobre o que aguentamos