Archive for the 'Politicamente correto' Category

Por que é preciso acabar com o PT?

manchadoEnquanto leio “Os excluídos da história – operários, mulheres, prisioneiros“, de Michelle Perrot, editora Paz e Terra, compreendo muito claramente a construção histórica que leva à necessidade atual de dizimar o Partido dos Trabalhadores no Brasil. Uma construção que inicia com os motins de mulheres durante a Revolução Industrial, como em 1788, em Barneville, na França. Se dá também em Vienne, na França de 1819. No mesmo ano, segue em Limoux e em Carcassonne… A união daquelas mulheres fez com que elas percebessem que unidas podiam mais.

O PT é hoje um dos maiores partidos identitários da Classe Trabalhadora no mundo. Representa essa união que dá força para as conquistas. A existência de um partido como o PT eleva a autoestima do trabalhador e o estimula a exigir mais direitos. Ele está oprimido, na fábrica, no escritório, no banco, mas ele sabe que existe uma instituição que trabalha por ele, que tem em sua carta de formação, em seu estatuto, em seus objetivos, defender os direitos daquele trabalhador explorado no chamado chão de fábrica.

A empregada doméstica estava sendo escravizada na casa da patroa, mas ouvia no seu radinho de pilha notícias da Benedita da Silva, que também tinha sido empregada doméstica, e agora era política pelo PT e estava lutando por direitos para as empregadas domésticas. E lutou incansavelmente, até a aprovação da PEC das Domésticas, Proposta de Emenda Constitucional que garantiu aos empregados domésticos direitos trabalhistas que antes ficavam a critério dos patrões, como jornada de trabalho, férias, pagamento de 13o salário, folga semanal.

ranking políticos cassadosPor um motivo como este ninguém lembra do PT, não é mesmo? Mas lembram para falar da corrupção, de como o partido destruiu ao Brasil… O que me causa estranheza é que o foco seja o PT mesmo quando ele esteja em 9o lugar no ranking dos políticos cassados de 2000 a 2015, de acordo com dados do TSE. O DEM é o campeão, com 69 políticos cassados, seguido pelo PMDB (agora MDB), com 66, e pelo PSDB, com 58. Do PT, foram 10. Mas ninguém fala que é preciso acabar com o PSDB ou com qualquer outro.

O PT acabou com a Petrobras, diz o senso comum. Então, veja o gráfico abaixo, sobre os políticos que responderam a inquéritos por suspeita de corrupção na Petrobrás:

investigados em esquemas de propina

No primeiro ano do governo Lula, 2003, a Polícia Federal realizou 16 operações de combate à corrupção, já no ano seguinte, foram 42 operações. Em 2008, 273 operações para combater a corrupção, em todos os níveis de governo. Em 2010, foram 272 ações. No acumulado do governo do presidente Lula, a Polícia Federal realizou 1.060 operações de combate à corrupção. Em todos os oitos anos de governo Fernando Henrique Cardoso foram registradas 48 operações contra a corrupção pela Polícia Federal. Em discurso no Senado, a senadora Ângela Portela (PT-RR) observou que isso foi possível graças à decisão do presidente Lula de fortalecer a Polícia Federal: durante os mandatos de Lula foram contratados mais servidores para a Polícia Federal por meio de concurso público, além de o orçamento da instituição ter sido ampliado e terem sido adquiridos equipamentos de inteligência. “Também durante o governo Lula, a Justiça Federal passou de 100 varas no país para 513”, informou a senadora.

Mas a questão é que ter um partido como o PT, estimula o trabalhador no seu dia-a-dia a buscar mais direitos, faz com que ele se sinta representado, faz o jovem da periferia andar de cabeça erguida, encoraja o homem do campo a não aceitar um prato de comida em troca de trabalho suado de sol a sol. Por isso, era preciso acabar com o PT. Então, foi criada uma cortina de fumaça e apresentado um cenário absolutamente descolado da realidade dos fatos para as pessoas acreditarem que o PT era o grande mal do Brasil. Colaram a etiqueta da corrupção no partido que fortaleceu o combate à corrupção e que, numericamente, não tinha o maior número de corruptos nos esquemas existentes.

Não estou dizendo aqui que devemos passar a mão na cabeça das pessoas do PT que sucumbiram à corrupção. Ao contrário, devem ser exemplarmente punidas, por tudo que o PT representa, inclusive. Mas as instituições devem ser maiores que as pessoas. O dia que descobrirmos um homem que pratique desvios no Corpo de Bombeiros, não vamos fechar a instituição de maior confiabilidade da população, vamos punir este homem. O dia que houver um diretor que cometa irregularidades na Fiocruz, não vamos acabar com aquela que é uma instituição que há mais de um século promove saúde e desenvolvimento social. Da mesma forma, não podemos acabar com a instituição que garante a autoestima, a força para lutar e acreditar nos seus direitos e a certeza de representatividade da camada mais expressiva da população, que é o Partido dos Trabalhadores, por causa de alguns homens que não honraram tal instituição.

É justamente porque o PT dá voz e vez a quem nunca teve, porque o PT abriu a porta da senzala e permitiu que quem dela saísse sentasse na sala de estar da Casa Grande, que criaram a ideia de que é preciso acabar com o PT. Eles sabem que se não conseguirem – e não conseguirão! – a Senzala nunca mais vai voltar para “o seu lugar”.

Por tudo isso, eu não aguento ver gente com capacidade cognitiva preservada, caindo nessa conversa de que é preciso acabar com o PT. Quem diz isso, ou é muito ingênuo, ou faz parte da Casa Grande e está muito incomodado com os avanços sociais que os anos de governo PT nos garantiram.

Afinal, votou na Dilma votou no Temer?

Dentro de um mês vamos ter eleições no Brasil – assim esperamos, ao menos – e uma questão que tem me incomodado muito há dois anos é a minha descoberta do quanto as pessoas não têm a menor noção do mecanismo da eleição.

Isso ficou claro quando Michel Temer começou a executar o programa de governo Ponte para o Futuro e a gente passou a ouvir na rua que a culpa é de quem elegeu a Dilma, porque “votou na Dilma votou no Temer”.

Não! Eu não aguento ouvir isso! É a confissão suprema de que não está entendendo nada.

lei 9.504/97, que estabelece normas para as eleições, exige que candidatos a chefe do Executivo entreguem seus planos de governo à Justiça Eleitoral, como parte da lista de documentos obrigatórios. Ou seja, não entregar impossibilita o registro da candidatura.

Em 2014, quando o nome de Dilma foi registrado como candidata à presidência, junto foram registrados o nome de Temer como candidato a vice e o programa de governo Mais mudanças, mais futuro. Votar na Dilma era votar no Mais mudanças, mais futuro.

É importante entender que a pessoa na qual votamos é quem executará o plano de ação que escolhemos para o governo. Ao votar na urna, estamos escolhendo um projeto de país que queremos, bem como um projeto de estado ou cidade. Um projeto que será alcançado com a colocação em prática de determinado programa de governo.

Em 2014, a maioria do povo brasileiro escolheu o plano Mais mudanças, mais futuro para ser executado. Ainda que a Dilma tivesse cometido crime de responsabilidade e merecesse sofrer o impedimento de continuar como presidenta da República, o sucessor deveria ter continuado o mandato agindo com base no previsto no plano escolhido pela maioria do povo brasileiro. Aí sim, o “votou na Dilma, votou no Temer” faria sentido.

mais mudanças mais futuroNo entanto, o que aconteceu foi que o vice-presidente, eleito junto com a Dilma para colocar em prática aquele programa, passou a implementar outro programa, o Ponte para o Futuro, que não foi submetido à aprovação popular. A Dilma sofreu o impeachment (ainda que injustamente), mas não seu programa. Não houve nova eleição. O povo tinha escolhido que fosse implementado o programa de governo Mais mudanças, mais futuro durante quatro anos. Alterar isso, passar a implementar outro programa no meio do mandato foi um golpe na vontade do povo.

Daqui a um mês, vamos escolher o plano de governo a ser colocado em prática no Brasil a partir de 2019. Vale o mesmo para os governos estaduais e do Distrito Federal. Em tese, a propaganda eleitoral serve para que os candidatos divulguem esses planos de governo. Mas a melhor forma de saber exatamente o que pretende fazer cada candidato, é conhecer seu programa de governo protocolado juntamente com a sua candidatura.

Por exemplo, se você ficou sensibilizado com a destruição do Museu Nacional, que pegou fogo no Rio de Janeiro no início de setembro, e acha que o próximo presidente tem que ter política específica para museus, saiba que somente dois programas de governo tratam disso. Ou seja, se votar em qualquer um dos outros, não vai poder reclamar que não fizeram nada pelos museus, porque eles nem disseram que fariam mesmo.

Leia mais sobre os programas de governo na matéria Qual o valor prático dos planos de governo entregues ao TSE.

Quem está de luto sou eu

Há algumas horas eu fiz um post no Facebook divulgando a matéria do DCM, cujo link está no fim deste texto. Mas acordei com a sensação de que o acontecimento vale mais que um post no Facebook, onde tudo é passageiro, até as ditas amizades. Resolvi fazer um texto para o blog, que ainda é mais perene.

Depois dessa publicação vou fechar meu Facebook pelo menos por hoje. Estou de luto. Estou de luto por vocês que foram para a Paulista ontem depois do anúncio de Lula como ministro, por cada um de vocês que tem participado dessas manifestações. Todos, sem exceção: os mal intencionados e os ingênuos, os que foram de graça e os que levaram vantagens para ir, cada um que engrossou a massa dessas manifestações contra o governo será responsável por cada agressão e cada morte que vier a ocorrer. Porque elas já estão ocorrendo e vão ocorrer cada vez mais.

Por Bundesarchiv, Bild 102-09844 / CC-BY-SA 3.0

Benito Mussolini, ditador que fundou o movimento fascista, em discurso em Milão em 1930. Fonte: Bundesarchiv, Bild 102-09844 / CC-BY-SA 3.0

Se alguém que me lê não entende direito o que é fascismo, por que essas manifestações contra o atual governo brasileiro têm sido chamadas de fascistas, esse episódio é a ilustração perfeita do fascismo: ocorreu uma manifestação que não havia sido previamente informada, não foi negociada com as autoridades no prazo exigido (no meu tempo de estudante na Paulista, isso resultava em cacetete nas costas), mas a manifestação foi devidamente escoltada pela polícia tucana. Então, um casal que passava por lá, porque era seu caminho e talvez nem soubessem da tal manifestação relâmpago, foi abordado por um manifestante que gritou “Fora Lula” no ouvido de um deles, que respondeu não concordar. Veja bem, ele não gritou “Fica Lula”, ele não ofendeu ninguém, ele apenas não concordou. Foi espancado. Agora você tem que sair às ruas e gritar o que estão gritando, para não apanhar? Mesmo que você não concorde, você tem que engrossar a massa com gritos de guerra que atacam aquilo no que você acredita. Isso é fascismo. Isso é opressão. Isso não é civilizado.

Nasci em meio a uma ditadura militar e, de criança, meu pai me ensinou a ter medo da polícia. Era fácil identificar, usavam fardas. Agora tenho medo de todo mundo. Acordei com medo, porque a última coisa que vi antes de dormir foi essa história e não foi fácil dormir depois disso. Mesmo com a certeza de estar defendendo uma sociedade mais justa, durmo com medo do meu vizinho, de andar na rua, de dizer o que penso, de usar uma roupa com a cor que eu gosto. Tenho tido medo de viver, de ser eu mesma, de me expressar, apenas porque não acho certo a empregada doméstica ter menos direitos que o executivo, apenas porque fico feliz em ver que 36 milhões de pessoas não passam mais fome nesse país, apenas porque acho que o fazendeiro que explora seus peões como escravos está errado, apenas porque acredito que todos os trâmites legais, conquistados a duras penas, devem ser considerados antes da condenação e detenção de alguém.

Tenho medo do ódio que vive no coração dessas pessoas. Não sei como esses manifestantes têm conseguido dormir com ele, mas enxergar eu tenho certeza que não conseguem mais.

Aqui a matéria do Kiko Nogueira, que no título pergunta: MORO, UM CASAL FOI ESPANCADO NA PAULISTA POR NÃO GRITAR “FORA LULA”. ERA ESSA A IDEIA?

Atualização 17 mar 2016, às 17h40: na tarde do dia seguinte ao ocorrido, uma das vítimas, Isadora, relatou passo a passo o que aconteceu. Se você tiver estômago forte, leia aqui. O meu revirou várias vezes durante a leitura…

O mal do país pode não estar onde você pensa…

Se tem coisa que eu não aguento, é ser massa de manobra. Esse negócio de me contarem uma história e já me darem a conclusão, já apontarem quem é o mocinho e quem é o bandido… fico desconfiada. Gosto de fazer meu cérebro trabalhar e descobrir minhas próprias conclusões. Jornalistas, me dêem informação, a interpretação é minha!

Assim, das revistas semanais do Brasil, eu leio apenas a Carta Capital e gosto especialmente dos textos do jornalista André Barrocal, de quem sou fã e ainda tenho o privilégio de ser amiga. Ele faz exatamente isso. Seu texto não me diz o que eu devo pensar ou usa subterfúgios para me fazer chegar às suas conclusões. Ele informa, eu reflito, eu concluo.

capa cartaNa revista dessa semana, a Carta Capital deu mais um show com a matéria de capa Devo, não nego – o rombo de 30 bilhões de reais no orçamento poderia ser coberto pela caça à sonegação. Ao longo da leitura, confirmei algumas suspeitas, concluí coisas novas e encontrei dados importantes para minha compreensão de vários acontecimentos. Talvez algumas conclusões nem fossem esperadas pelo pessoal da revista, talvez eles tivessem outra expectativa, podem ser até conclusões óbvias demais para quem está entranhado nas informações como eles e pode haver outras que eu nem percebi. Mas foi a minha leitura. E divido aqui com vocês, por achar que as informações que constam ali são realmente preciosas.

A matéria trata do rombo no orçamento da União, que poderia ser coberto se os sonegadores fossem obrigados a pagar o que devem. Até dezembro, a Dívida Ativa da União deve ultrapassar 1,5 trilhão de reais, entre impostos, taxas em geral, contribuições à Previdência Social, multas ambientais, entre outras. E não pensem vocês que estamos falando de dívidas dos pequenos comerciantes, de microempresários, dos jovens empreendedores que podem se embananar na contabilidade. “Os maiores caloteiros são companhias poderosas”, observa a matéria. Os setores campeões de pendências tributárias são a indústria de transformação, o comércio, os bancos, os produtores de alimentos e bebidas, as empreiteiras e as instituições de ensino. E mais: “Os grandes grupos econômicos são os principais ocultadores de patrimônio”. Patrimônio esse que seria executado para fins da recuperação do dinheiro não pago quando a empresa perdesse a causa na justiça. São “contribuintes dispostos a ganhar a vida à custa da sociedade”. A matéria mostra ainda que as empresas tem um verdadeiro “planejamento tributário institucionalizado” que visa, justamente, evitar – ou pelo menos postergar ao máximo – o pagamento do que devem ao Estado. Ou seja, mesmo devendo, eles não pagam, são cobrados administrativamente, continuam não pagando, são cobrados judicialmente e aí deitam em berço esplêndido. Conclusão: no rombo das contas públicas, temos um primeiro culpado – as empresas.

As empresas deitam em berço esplêndido enquanto os juízes sentam nos processos, com seus longos dias de férias, licenças, recessos e sem prazo para apresentar o trabalho. Os processos se arrastam. Dos 100 milhões de processos, 70% jamais foram objeto de julgamento. O mais bizarro: quem entra na lista da Dívida Ativa é proibido de participar de licitações, assinar contratos com o poder público e tomar empréstimo oficial. Mas a proibição acaba no momento em que se inicia o processo judicial. Nesse ritmo, de 2008 pra cá, apenas 1,3% do total da dívida foi recuperado. Conclusão: no rombo das contas públicas, temos um segundo culpado – o judiciário.

Mas não tem lei nesse país? Ah, tem sim. “Uma série de leis ultrapassadas e incapazes de produzir sentenças rápidas”, como escreve Barrocal. O advogado tributarista, Heleno Torres, ouvido pela revista, afirma que “a lei brasileira é muito ruim. Não existe nada parecido no mundo”. Conclusão: o Legislativo, que faz as leis, também é culpado.

Não podemos esquecer que os membros do Legislativo (senadores, deputados federais e estaduais e vereadores) têm suas campanhas eleitorais financiadas por grandes empresas ou grupos econômicos. Daí, juntando uma coisa com a outra e com outra que nem está no texto, mas é assunto do momento, dá pra entender por que discutir o financiamento empresarial de campanha é tão importante.

Como escreveu André Barrocal: “No Brasil, sempre foi mais fácil arrancar o couro da tigrada”.

Cuba além de Havana e Varadero

O básico para fazer em Cuba é a capital, Havana, e uma praiazinha, porque ninguém é de ferro. Afinal, a ilha é no mar do Caribe e isso não é qualquer coisa. Como Varadero é a praia mais próxima de Havana, o destino mais óbvio é lá. Seguindo essa regra, na primeira vez que fomos a Cuba, conhecemos exatamente Havana e Varadero.

Agora, em janeiro de 2015, voltamos para Havana e conhecemos também Santa Clara, Remédios e Cayo Santa María, tudo na província Villa Clara. Ainda falta muito, mas já deu para satisfazer mais nossa sede de compreensão e conhecimento sobre a ilha dos Castro. 091 Villa Clara

Santa Clara é a terra de Che Guevara. Lá ele liderou o Exército Rebelde na tomada do trem blindado, em 29 de dezembro de 1958. A última grande ação da revolução, que permitiu a chegada ao poder em 1 de janeiro de 1959, libertando o povo da ditadura de Fulgêncio Batista.

Para marcar a importância da relação entre o lugar e Che, é lá que se encontra o mausoléu com os restos mortais do herói argentino. Fica ao lado de um museu com peças de vestuário e objetos do cotidiano de Che Guevara, ambos sob um enorme monumento à oeste do Parque Vidal. 044 Santa Clara Che Na mesma cidade também estão preservados alguns vagões do trem blindado, que carregava mais de 400 homens e um poderoso arsenal de armamentos com canhões, bazucas, lança foguetes, metralhadoras, fuzis e inúmeros projéteis. Eles estão no exato local onde o trem foi atacado em uma batalha de uma hora e meia que foi decisiva para o sucesso do Exército Rebelde. 277 assalto ao trem blindado Santa Clara é Che Guevara na veia. Se você admira o cara, vá. Se não admira, leia mais. Mas é também muita agitação cultural. Lá fica a segunda universidade mais famosa de Cuba: Universidad Central Marta Abreu de las Villas. A primeira é a Universidad de La Habana. Com isso, a cidade tem muitos jovens e inquietos universitários, que fazem da vida noturna uma mistura de música, teatro e dança. 042 a cultura em Santa Clara Estando em Santa Clara, você consegue pegar um ônibus até Remédios, da companhia Víazul, e, em menos de uma hora chegar a um dos povoados mais antigos de Cuba, onde fica o bar mais antigo do país em atividade contínua: El Louvre, inaugurado em 1866. Em algumas horas vo060 Remédios restaurante mais antigocê anda a cidade toda, vê a arquitetura colonial, desfruta de um ambiente tranquilo numa pequena cidade pacata do interior.

Tanto em Santa Clara quanto em Remédios, é possível comer em restaurantes destinados ao público local com mais facilidade do que em Havana. Explico: em Cuba temos duas vidas financeiras paralelas – a dos turistas e a dos moradores locais. Contei aqui que isso significa haver duas moedas, o CUC dos estrangeiros e o CUP dos locais. Assim, a maioria dos lugares que frequentamos é para turista ver. Já cobra logo em CUC e quase não se vê cubano como cliente. Daí surgem as várias lendas sobre como os cubanos vivem mal na própria ilha. Com o tempo, passaram a ser permitidos os Paladares, que são restaurantes, instalados nas casas de cubanos, que servem comida típica local, com ares mais caseiros. No entanto, a maioria dos frequentadores ainda é estrangeira. 089 La Toscana Santa Clara

Em Villa Clara conhecemos alguns restaurantes como o Portales de La Plaza (em Remédios) e o La Toscana (em Santa Clara) frequentados por moradores locais. Nesses estabelecimentos, inclusive, a conta veio em CUP e tivemos que pedir a gentileza do garçom converter para podermos pagar com a única moeda que tínhamos, CUC. Para surpresa do leitor mais ingênuo, a comida era ótima, da mesma qualidade que nos restaurantes “para turista ver”. A diferença é que o prato para os locais sai bem mais barato e o serviço é menos cheio de frufru.

Na região, há ainda Trinidad, na província vizinha de Sancti-Spiritus. Não coube no nosso roteiro, mas parece bastante interessante, uma cidade colonial maior e com mais edifícios preservados do que Remédios. Comparando para quem é do Centro-Oeste do Brasil ou conhece a região: Remédios é mais Pirenópolis, Trinidad é mais cidade de Goiás. Fomos a Remédios, pelo mesmo motivo que as pessoas que estão em Brasília, em geral, vão a Pirenópolis: é mais perto.

Nossa última descoberta nessa viagem foi Cayo Santa María. Cayos são as ilhas menores que cercam a grande Ilha de Cuba. Para chegar a Santa María, foi construído El Pedraplén: 48 km de estrada em forma de recifes artificiais que ligam as Cayerías del Norte (seria o arquipélago do Norte). Até Cayo Santa María são 45 pontes na estrada, que permitem o escoamento do mar em meio aos recifes. É uma mistura fantástica de obra da natureza com obra dos homens. Em Cayo Santa María, assim como em Varadero, uma sequência de resorts acolhe os turistas com ótima hospitalidade e grande oferta de serviços e passeios. Dias para não fazer nada, apenas escolher entre água doce ou água salgada, bar da piscina ou bar da praia, Mojito ou Daiquiri, churrascaria ou restaurante japonês, massagem relaxante ou energizante… 118 Cayo Santa María Mas hotel é assunto para outro post, porque tanta informação num só, nem eu aguento.

Cuba, de novo

Pela segunda vez fomos à Cuba de férias. Como já disse no texto Tentando entender Cuba, em geral, não gosto de repetir destinos, porque o mundo é muito grande e falta muito para ver ainda. Mas Cuba tinha deixado um gostinho intenso de quero mais. E agora não vou resistir a contar mais um pouco do que aconteceu, até porque, desta vez fomos a novos destinos, conhecemos outras partes do país. Merece o registro.x aeroporto José Martí

Apesar da reaproximação diplomática com os Estados Unidos anunciada em dezembro de 2014, ainda não houve mudanças significativas no país. Aliás, pasmem: para os cubanos, o anúncio do restabelecimento de relações com os Estados Unidos não foi a notícia mais importante daquele dia 17 de dezembro. E então, você fica com cara de parvo: Ah, não? Mas foi isso que a mídia destacou! A mídia brasileira não sabe de nada. Copia o que a CNN dá.

Se tivesse ouvido o discurso do Raúl Castro além do do Barack Obama, se tivesse um correspondente em Havana, em vez de só em Washington ou Nova Iorque, teria notado que importante mesmo naquele dia, foi o anúncio de que o acordo previa a libertação de três cubanos apontados pelo governo estadunidense como espiões e presos por lá: Gerardo Hernández, Antonio Guerrero e Ramón Labañino. “La alegría de sus familiares y de todo nuestro pueblo que se movilizó con ese objetivo se extienden a los cientos de Gobiernos solidarios, parlamentos, organizaciones e instituciones que durante estos 16 años reclamaron e hicieron esfuerzos para su liberación”, afirmou Raúl Castro em cadeia de rádio e televisão no dia, de acordo com matéria da Telesur. Nas ruas, um mês depois, a libertação dos cubanos ainda era comemorada.

054 BandeiraE o embargo? Sim, o embargo é um mal que os Estados Unidos fizeram à Cuba e que gerou uma dívida histórica a ser paga. Mas eles estão há mais de 50 anos lá, suportando isso. Os fracos saíram logo na altura da revolução. Quem ficou se mostrou forte por ter sobrevivido a tão cruel política internacional e agora essa mudança pode vir, como não.

Aliás, é triste como quem está de fora tem dificuldade em perceber o que significou o embargo. Outro dia ouvi uma pessoa explicando à outra que em Cuba não se tem acesso a todos os bens de consumo que existem em outros lugares, porque lá é socialista. Errado! Cuba não tem acesso, porque em 1962, vendo o sucesso da nova administração socialista em Cuba, os Estados Unidos iniciaram um processo de isolamento do país, por meio do embargo (ou bloqueo, como dizem os espanhois) para sufocar o regime. O governo americano anunciou ao mundo: Quem -empresas, bancos, governos – fizesse negócios com Cuba, não faria negócios com os Estados Unidos. Como eles naquela altura já eram os maiores consumidores do mundo, as empresas, bancos e governos não socialistas, deixaram de comercializar com Cuba.

Acabou por ser uma boa maneira de nunca sabermos se o regime socialista daria certo ou não. Afinal, eles vivem uma realidade falsa. Será que, Cuba podendo comercializar com outros países não permitiria que seus moradores tivessem melhores condições de vida? Afinal, o país não consegue adquirir bens – ou você acha que os carros muito antigos que circulam por lá são opção pela sustentabilidade? – e isso prejudica até mesmo o desenvolvimento da indústria, além de dificultar o trabalho na área de saúde. Cuba tem, reconhecidamente, um ótimo sistema de saúde pública e forma profissionais da área com excelência, mas tem que fazer um grande esforço para aparelhar hospitais e centros de saúde, pois “é comum ter o dinheiro para comprar os equipamentos de que precisa e não encontrar vendedores disponíveis”, como explica artigo do Diário do Centro do Mundo. Por outro lado, será que tendo acesso aos bens de consumo, o regime socialista teria sobrevivido tanto tempo? Talvez o embargo tenha sido um tiro no pé, dando um ganho na vida útil de um regime que, contaminado pelo contato com os países capitalistas, talvez não vingasse. Nunca saberemos.

Todos os direitos às domésticas!

trabalho domésticoPouco mais de um século desde o fim da escravidão, mulheres ainda realizam o trabalho que antes era das escravas, em condição análoga a das escravas. Já ouvi empregadas domésticas comentarem que “tal patroa é boa, ela me trata que nem gente”. O tom, de uma certa resignação em aceitar que não era gente de verdade, mas também de algum prazer em estar sendo tratada como algo que acreditava não ser, mas gostaria de ser.

A situação no Brasil é tão banal, que quando alguém viaja ao exterior e convive com a realidade doméstica local, em geral volta espantado: “Nos Estados Unidos não dá para se ter empregada todos os dias, cobram uma fortuna. E por hora!”; “Fulana vive na Europa sem empregada doméstica”. Como se o comum fosse ter alguém para limpar a latrina que você suja. Aqui é. Consequência da sociedade escravagista de antes, o Brasil é hoje o país com o maior número de empregados domésticos no mundo, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Eram ao menos 7,2 milhões em 2010, de acordo com texto da revista Carta Capital, na ótima matéria Os serviçais do Brasil.

Para mim, é indicativo de falta de autosuficiência, algo extremamente arcaico, fora de moda. Mas aí é assunto para outro post… vamos ficar hoje no trabalho doméstico que existe e é fato no Brasil, goste eu ou não.

A famosa PEC das Domésticas é uma Proposta de Emenda Constitucional que garante aos empregados domésticos direitos trabalhistas que antes ficavam a critério dos patrões, como jornada de trabalho, férias, pagamento de 13o salário, folga semanal, etc. Ou seja, acaba com a esculhambação.

Tão logo foi aprovada, em março de 2013, a frase que tomou conta das conversas da classe-média-que-sofre foi: “Não vai dar mais para ter uma empregada desse jeito”. A tradução é: não dá mais para a família querer que uma só pessoa seja babá, faxineira e cozinheira, obrigando-a a chegar antes do café da manhã (e o preparar, claro), limpar a casa, preparar e servir almoço e jantar e só sair depois que a cozinha estiver arrumada; no meio de tudo isso, leva e busca as crianças na escola e cuida que façam os deveres. No sábado, como não tem que cuidar das crianças, fica tempo para ir ao mercado, cuidar do jardim e levar o cão pra tomar banho.

É… para ter alguém nesses termos vai ficar caro mesmo. Normalmente, a pessoa tem uma empregada que faz tudo isso e enche o peito para falar: “pago um salário mínimo para a minha empregada”, como se fosse grande coisa. Não é. Se os patrões que saem de casa e deixam tudo a cargo da empregada têm jornada de trabalho estabelecida, com pagamento de horas extras, FGTS, contribuição previdenciária ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), além de benefícios, por que eles acham que ela merece menos? São trabalhadores na mesma. Merecem respeito e direitos iguais.

Errado estava até então, que a empregada fazia tudo isso e muitas vezes nem contava com o registro na carteira de trabalho, uma vez que a multa para quem não registra empregada doméstica passou a vigorar só em agosto de 2014. Isso mesmo: quatro meses atrás!

Sabe quando a empregada doméstica “sai caro”? Quando fica “impossível de pagar uma empregada”? Quando o patrão a faz trabalhar além das medidas. Porque, afinal, se não tiver hora extra, o aumento do custo com a regulamentação da profissão não fica assim tão salgado. Primeiro, devemos ter em conta que o patrão já pagava o transporte e o INSS. Óbvio, né? Não, não é… Bem, vamos considerar então que ele passe a pagar cerca de R$ 90 a mais por mês de transporte e R$ 90 de INSS – se pagar à empregada o salário mínimo. O FGTS sobre um salário mínimo não chega a R$ 60 (8%). Ou seja, o acréscimo, com a lei seria apenas de R$ 60. Considerando que o patrão não pagava transporte nem INSS, passa a ser R$ 240. Podemos traduzir em R$ 8 por dia para tirar um ser humano de situação de exploração.

Matéria da Exame.com “alerta”: “Considerando que o empregado não faça horas extras, não receba adicional noturno, não seja demitido e seu salário base seja de mil reais, apenas com o novo custo do FGTS, o gasto mensal do empregador aumentará 6,64% [R$ 66,40 em mil reais de salário]. Se esse mesmo empregado fizer duas horas extras por dia, os custos aumentarão 40,28% e se essas horas extras forem realizadas em período com adicional noturno (das 22h às 5h) o aumento dos gastos será de 50,78%.” Ou seja, só vai ter que pagar 50% a mais quem quiser a mucama presente na hora de tomar seu leitinho quente antes de dormir…

Ah, mas agora até multa quando manda embora sem justa causa se tem que pagar!”, lamentam os cansados. Ora, pois… para não correr o risco de ficar pobre se te der na telha de mandar a empregada embora sem nenhuma razão, basta fazer uma pequena poupança de R$ 45 por mês. Assim, quando resolver demitir sem justa causa a empregada, já tem dinheiro para a “terrível” multa rescisória, além das férias proporcionais, um terço de férias proporcionais e o 13o proporcional.

Resolvi falar de tudo isso, porque a presidenta Dilma Rousseff vetou o projeto de lei que reduzia de 12% para 6% a alíquota do INSS que cabe aos patrões. A razão da presidenta é “contrariedade ao interesse público”, parece que por causar impacto negativo nas contas públicas. Pode até ser. Para mim, o bom dessa medida é não permitir a criação de categoria profissional de segunda classe. O reconhecimento da categoria como profissão aconteceu em 1972, com a lei 5.859. Mesmo assim, mais de quatro décadas se passaram e as domésticas ainda não têm os mesmos direitos dos demais trabalhadoresNão vejo razão para o empregador doméstico ter menos deveres que qualquer outro.

Gente que adora clamar por justiça!, mas dentro de casa é um grande carrasco, eu não aguento!

Para Marina, vice já era um elogio

Desde que o candidato à presidência da República, Eduardo Campos, morreu em um acidente de avião, o cenário político eleitoral de 2014 virou completamente e, tentando me distanciar de paixões, tenho feito muitas reflexões. A principal delas é no sentido da viabilidade técnica de Marina Silva governar o país.

Quando Eduardo Campos foi escolhido candidato e ela vice, houve muita especulação sobre a possibilidade dela ser a cabeça de chapa. As argumentações principais eram que ela teria mais apelo popular, seria mais fácil de ser vendida ao público, era mais conhecida nacionalmente e outras baboseiras nesta linha.

No entanto, não deu pra ela. Não deu porque, claramente, ela não tem estofo para tanto. Politicamente, ela é fraca tanto em seus apoios, que se resumem a ambientalistas e banqueiros, quanto em sua experiência na vida pública. Em 30 anos – sim ela está aí há 30 anos senhoras e senhores! – foi pessoa de uma nota só, nunca foi capaz de discutir o Brasil de forma completa, não me parece sequer que compreende a posição do país no mundo hoje. É a defensora de uma causa, sem conseguir contextualizá-la no universo mais amplo.

A candidata almofada vazia

Marina: a candidata almofada vazia

Agora, com a ausência de Eduardo Campos, querem fazê-la candidata. E o PSB fez. Na prática, ela é candidata. Mas é uma candidatura tão frágil quanto a própria figura física que a carrega. Tenho pensado incessantemente em alguns pontos que não me fazem conseguir engolir sequer a ideia de que, dentro da coligação do PSB ela seja a melhor alternativa:

– ela se diz o novo, a terceira via, mas tem uma história de três décadas de vida política; nesta vida política que está aí, não em outra;

– sua vida religiosa é tão errática quanto a vida política e, mesmo assim, se apega ao fato de hoje ser evangélica (depois de quase ter sido freira) para angariar uma parcela de votos (eu não falei em oportunismo, foi você que pensou);

– como vereadora, seu grande feito foi a tomada de medidas populistas, como devolver parte dos recursos recebidos sem, no entanto, mudar o status quo;

– como deputada estadual, nem mesmo em seu site oficial há algum destaque para suas atividades;

– como senadora, se destacou na defesa do meio ambiente. E só. Só não no sentido de ser pouco. Acho extremamente relevante, aliás. Mas só no sentido de ser restrito, de ser uma atuação de uma nota só. O desempenho fez com que conseguisse o cargo de ministra do meio ambiente no governo de Lula.

Foi uma boa ministra do meio ambiente? Aparenta ter sido. Pelo menos defendeu bem a causa e o Brasil avançou muito nesta questão.

Mas, e o que mais? O Brasil é isso?

Gente com falta de visão, eu não aguento.

 

Casa grande e senzala na sala da podóloga

pé desenho

Outro dia fui cuidar da higiene dos pés e das mãos e, enquanto a podóloga dava conta de uns e a manicure dava conta das outras, na TV da salinha onde eu era atendida, Dilma participava de cerimônia de entrega de casas do programa Minha Casa Minha Vida.

O tema da TV virou assunto da conversa. Eu estava entretida com uma leitura, mas não tinha como não ouvir o que contavam as duas. Entre podóloga e manicure, pelo menos dez pessoas foram citadas por estarem adquirindo casas pelo programa que aparecia na TV. Estavam comprando suas próprias casas. Adquirindo com dignidade, mas dentro das suas condições. Nada de ganhar do governo, como se fazia antigamente. Entre estas pessoas, a própria podóloga, que comentou ainda que o apartamento que recebeu era melhor do que ela esperava. Tanto no tamanho quanto no acabamento. E sua tia, além da casa, adquiriu também móveis novos, com o cartão Minha Casa Melhor.

No fim do ano, ela contou que vai tentar entrar na faculdade, fazendo uso do programa Prouni, que concede bolsas de estudo integrais e parciais em instituições privadas de ensino superior. Afinal, ela tem o curso de podologia, mas quer ir além e sabe que pode. Mas, com o salário que recebe não teria como pagar uma faculdade ou um cursinho para passar numa estadual ou federal.

Conversa vai, conversa vem… acabei participando em alguns momentos, até que a podóloga comentou algo sobre as eleições que estão chegando. Foi a deixa para eu fazer a pergunta: e aí? Vai votar na Dilma? Para mim era uma pergunta retórica. Mas não. A resposta foi surpreendente: “não vou votar, não. Vou anular”. Prossegui na conversa psicodélica na qual tinha me metido, porque agora eu queria desfazer o mistério. Ela confirmou que não votaria na Dilma, mas que também não via ninguém melhor que ela, porque ela tinha feito muitas coisas boas. E, afinal, chegou à explicação: “Meus clientes todos falam que ela não é boa. Não tenho nenhum cliente que vote nela. Então ela não deve ser boa”.

Tudo fez sentido.

Não basta oferecer condições para as pessoas mudarem suas vidas, terem acesso aos espaços de consumo, usarem o mesmo perfume que a patroa, pegarem o mesmo voo que o executivo, adquirirem casas sem ser de favor, ingressarem nas faculdades ou em cursos profissionalizantes para construírem um futuro melhor para elas e suas famílias. É preciso ensinar às pessoas seu valor na sociedade: exatamente o mesmo de qualquer outra pessoa. É preciso tirar das pessoas o ranço da casa grande e da senzala. É preciso fazer com que os próprios empregados não achem que exista o espaço do empregado e o espaço do patrão. Porque, enquanto não conseguirmos isso, os empregados serão subalternos intelectuais de seus patrões.

Para aquela pessoa eu tive a oportunidade de falar sobre isso, sobre os motivos dos clientes não gostarem da Dilma. Eu a fiz pensar sobre o quanto se paga para fazer o pé num ambiente daquele. E o quanto as pessoas que têm dinheiro para pagar isso, em geral, não querem que ela saia do banquinho de cuidar do pé dos outros. Querem que ela fique exatamente ali para sempre. E, para isso, a Dilma não serve mesmo…

 

 

As pessoas são muito fofas… só na internet

Está circulando doidamente pelas redes sociais um vídeo de um camarada de bom coração que faz uma sequência de gestos bacanas ao logo do seu dia. Divide sua comida com um cão, seu dinheiro com uma menina que quer estudar, sua força com uma idosa que trabalha com um carrinho de mão… É o bom moço que toda mãe quer para casar com sua filha. No final, o que ele ganha com isso? Fica mais rico? Tem mais poder? Não, apenas tem uma vida feliz. E assim termina o comercial de uma empresa de seguros.

Se você ainda não foi contaminado por ele, pegue o lenço e inicie o vídeo aqui.

Os comentários vão desde “assista esse vídeo e se emocione” até “assista e se torne uma pessoa melhor”. E pensar que os caras só queriam vender umas apólices de seguro!

As mesmas pessoas ficaram supercontentes com a notícia que circulou também doidamente pela internet de um camarada que encontrou um dinheiro e uma fatura que venceria naquele dia, pagou a fatura com o dinheiro e ainda se empenhou em descobrir a dona que tinha deixado tudo cair no chão no meio da rua para devolver a fatura paga, juntamente com o troco.

Daí os comentários são ainda mais contundentes: “ah, se todos fossem iguais”, “como o mundo seria melhor se existissem mais pessoas assim”, “puxa, isso é um exemplo a ser seguido”.

E é sempre assim. Toda vez que um cidadão comum (de preferência pobre e endividado, para o enredo ficar mais comovente) encontra uma mala de dinheiro no meio da rua, carteira recheada na lata do lixo ou baú de jóias por aí e devolve, a sociedade entra em comoção, as emissoras de TV vão ao encontro de aumentar a audiência, filósofos e psicólogos são entrevistados nas rádios para abordar o assunto.

Passados alguns dias, tudo volta ao normal. Nenhuma das pessoas que ficaram tão comovidas e choraram diante do computador passa a fazer boas ações por aí como o camarada do comercial de TV e acredito que muito poucas devolveriam alguma fortuna que viessem a encontrar. É o velho ditado transferido para o mundo virtual: faça o que eu compartilho, mas não faça o que eu faço.

As pessoas não percebem que se cada uma delas fosse desse jeito que tanto admiram, aí sim o mundo seria melhor. Não adianta ficar cobrando dos outros, aquilo que você não dá conta de fazer.

Falta de coerência, eu não aguento.

 


placa Cabo da Boa Esperança

Digite seu endereço de e-mail para acompanhar esse blog e receber notificações de novos posts por e-mail.

Junte-se a 175 outros seguidores

novembro 2018
S T Q Q S S D
« set    
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930  

Tudo que já aguentamos por aqui

Sobre o que aguentamos