Confraria Colonial Hotel Boutique – um oásis pertinho de São Paulo

Da seleção de músicas nos ambientes à escolha dos produtos de higiene pessoal oferecidos no banheiro do quarto, tudo nos encantou. Uma semana das férias de outubro de 2021 foi passada no Confraria Colonial Hotel Boutique. Como eu já falei no post Consulte sempre um profissional, opiniões sobre hospedagens são sempre muito subjetivas e esse texto aqui não se propõe a ser diferente. Então, considere isso ao ler o texto e entenda que se trata de opinião pessoal, descrição de um momento que foi muito bom para mim e que deve servir apenas como referência.

De cara, o local nos agradou porque recebeu muito bem a dupla canina Lisa e Luke. Durante a estadia, foi possível perceber que a maior procura pelo hotel é aos finais de semana. Houve dias com eventos corporativos (que acontecem em ambientes separados e praticamente não víamos as pessoas envolvidas) e outros dias ficamos só nós no hotel. Dois humanos e dois cães com todo o mimo possível da equipe super bacana e atenciosa.

Ficamos na suíte Visconde, que tem um bom tamanho para família de quatro membros nos moldes da nossa. Próxima aos restaurantes e equipamentos de lazer, como sala de jogos, piscinas, sauna, foi uma localização estratégica, mesmo nos momentos de chuva. Cama confortável, poltrona, banheiro de bom tamanho (mas não tem banheira, que está disponível em outros tipos de quarto).

Como avisamos antes que passaríamos o aniversário de casamento lá, ainda fomos surpreendidos na chegada com um mimo especial em alusão à data.

As edificações do hotel são todas em estilo colonial – como o nome já indica – e ficam cercadas pela mata atlântica. São vários chalés com suítes de diversos tamanhos (alguns mais isolados), além de construções onde ficam os restaurantes, salão de jogos, sala de cinema, sauna, piscina aquecida, sala com aparelhos para atividades físicas, sala de massagem (que deve ser contratada em separado na recepção). Por termos ido em tempos de pandemia (COVID-19, para futuras referências), havia agendamento para uso da sauna e outros equipamentos. Todas as orientações para tal são passadas pelo pessoal da recepção na chegada. Meu espaço preferido foi a piscina aquecida interligada com a sauna.

Do outro lado do vidro, a piscina continua, dentro da sauna

Outra piscina maravilhosa e também aquecida, fica perto dessa e é mais funda e larga, permitindo dar umas braçadas…

Também tem uma piscina aberta, com bar molhado, que usamos pouco porque o clima não estava muito favorável, e uma Jacuzzi ao ar livre, que só fomos uma vez pelo mesmo motivo. Tem ainda um lago, onde se pode praticar pesca esportiva. Para atividades ao ar livre fora da água tem quadras de tênis e trilhas. As trilhas não são radicais, mas, para uma família de apartamento como a nossa, foram grandes aventuras! Frequentamos todos os dias e Lisa e Luke adoraram a vida “selvagem”.

Para refeições, ou apenas para descansar um pouco e curtir a paisagem, tem um deque fantástico entre as árvores, com iluminação noturna e uma linda decoração.

Por falar em refeições… estão incluídas na diária três refeições, café da manhã, almoço e jantar. O destaque do café da manhã fica para o pão de queijo, delicioso. É um café bem completo, com opções de pães, omeletes, frutas, sucos, iogurtes, bebidas quentes e frias. No almoço, se escolhe os pratos e eles vêm servidos em panelinhas de barro. Cara de comida de fazenda. No jantar, pratos de cozinha internacional, em serviço à la carte. Sempre tem opções de sobremesa, incluindo frutas. O cardápio é assinado pelo chefe Paulo Gomes, que não decepcionou em nenhuma refeição.

A única observação negativa no quesito alimentação é por conta de não ter nenhuma bebida incluída no almoço ou jantar. Nem mesmo água ou bebidas não alcoólicas. Pelo valor da diária, considero mesquinho não incluir. Mas, a regra é informada antes, não foi uma surpresa. Com o estilo colonial, caberia até ter um filtro de barro nos quartos, para oferecer água filtrada, ao menos.

Enfim, foram tantos os cuidados de todos da equipe com a gente, foi tão boa a recepção ao Luke e à Lisa, passamos dias tão agradáveis, que não consigo pensar em algo que me fizesse não querer voltar. Mas, como gostam de dizer os que negam a aplicação de métodos e análise de dados “essa é a minha opinião”. Nada mais. Se fosse para fazer uma análise profissional, eu usaria parâmetros que talvez indicassem um resultado menos favorável. Mas, o único critério que estou usando aqui é o quanto eu me senti bem naquele momento, o que tem bastante a ver com a minha conjuntura e não só com o local.

Como chegar:

O Confraria Colonial fica em Mairinque, no estado de São Paulo, a cerca de uma hora e meia da capital (dependendo de onde e a que horas se sai da capital, claro), pela Rodovia Castelo Branco. Dá para seguir pelo GPS até entrar na estrada de terra. Tem que sair da Rodovia Castelo Brando no Viaduto Edward C. Leme, em Mairinque, (saída de BR-374/SP-280), então, siga as placas para o bairro Dona Catarina e acompanhe as indicações do GPS. Quando começarem as placas do próprio hotel, siga por elas. Isso porque o GPS não indica o melhor caminho na estrada de terra. E, mesmo o caminho indicado pelas placas não é tão bom assim… evite ir com chuva ou à noite, pois não tem iluminação na estrada. O trecho ruim é curto, cerca de 12 minutos. A parte de terra mesmo é só um quilômetro, mas, por outros 3 quilômetros tem tanto buraco no asfalto que nem parece que tem asfalto. Mas, acredite, vale muito passar por esse breve perrengue.

O simpático dispensador de saquinhos plásticos

Consulte sempre um profissional

Há alguns anos, a Ordem dos Advogados do Brasil tinha uma campanha cujo slogan era “Consulte sempre um advogado”. Em tempos de redes sociais que permitem que todo mundo se sinta habilitado a palpitar sobre tudo, eu ampliaria a frase para “consulte sempre um profissional”. Qualquer profissional. Para tudo que precisar, sempre é melhor um profissional.

Recentemente tirei férias e para escolher o destino e hotel procurei referências na internet. Na minha ilusão, eu encontraria informações em sites que estariam substituindo os antigos guias de viagem em papel. Mas isso é praticamente impossível. Os poucos sites de viagem que existem apresentam textos claramente elaborados por assessorias de comunicação dos hotéis e não por jornalistas que foram aos locais e avaliaram os estabelecimentos com olhar técnico, observando os itens a partir de um check-list que garanta comparação justa entre os diversos estabelecimentos do mesmo tipo.

O que mais se tem utilizado, aparentemente, são os sites de agendamento de viagens, onde há descrição oferecida pelo hotel e avaliações de hóspedes. Mas, o problema da avaliação do hóspede é que ela não é técnica e mistura emoções pessoais. Dependendo do momento da sua vida, o mesmo lugar pode ser maravilhoso ou um desastre completo.

O hotel que acabamos escolhendo para passar nossa semana de férias recebeu notas mínimas e máximas de hóspedes que tinham ficado no mesmo período no estabelecimento. Isso tem a ver tanto com o momento individual de cada hóspede quanto com as expectativas e experiências anteriores de cada um. Quando não se tem um olhar técnico, a avaliação fica totalmente subjetiva. No mesmo período de hospedagem diferentes pessoas fizeram comentários indicando que o hotel era de péssimo a maravilhoso.

Sem contar o tanto de observações absolutamente vazias como “comida ok”, “café da manhã fraco”, “falta processo, falta método”, “os souplats são feios e de baixa qualidade”… Mas, gente! Como escolher um hotel com base nisso? Tem um comentário que mostra bem como tudo é questão de referência: “comida que eu mesma faço em casa”. No meu caso, qualquer porcaria seria melhor, eu não sei cozinhar… Ou seja, aquilo que antes era dado como opinião para os amigos na mesa do bar extrapolou para uma informação de massa.

Sou velha – já há quase uma década nos enta -, sou do tempo que ouvinte ouvia, senão seria chamado falante, e do tempo que se escolhia pra onde viajar com base em avaliação profissional e não na experiência dos outros. Outros que você nem conhece… não é a mesma coisa que um amigo indicar um lugar pra ir, porque é uma pessoa que você conhece, sabe os parâmetros de exigência e tal… é um ser aleatório, que pode ter inúmeras razões pessoais para detonar ou super avaliar bem um estabelecimento.

Mas, como isso não se encontra mais – pelo menos não com a facilidade de antes – deixo aqui a minha experiência pessoal: super recomendo o Confraria Colonial Hotel Boutique. Passamos uma semana maravilhosa lá, com um atendimento de primeira, diversão para os cachorros e paz absoluta. Pode ser influência do bom momento pessoal? Pode. De toda forma, vou ousar escrever um pouco sobre como foi nossa estadia no hotel, pra ajudar quem procura opinião a respeito… Vejam aqui.

A ONU não precisa se prestar a isso

Deceitful man telling lies. People with megaphone incriminate liar with cheating. Fake information spread, fraud accusation, dishonest person. Vector isolated concept metaphor illustration

A abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas é tradicionalmente feita pela pessoa que ocupa o cargo de presidente do Brasil. Uma tradição baseada em uma convenção silenciosamente pactuada pelos países membros das Nações Unidas. Há duas ou três teorias que explicam como o Brasil aí chegou, mas não há documentos, atas, resoluções que determinem essa prática. Assim sendo, nada obriga a ONU a manter a tradição. Depois do discurso de hoje, o Secretário Geral da ONU bem poderia acabar com essa tradição.

Bolsonaro usou o púlpito como se fosse seu cercadinho de todo dia. Fez um discurso de campanha, bairrista, de rame-rame com governadores e prefeitos, um discurso pequeno não só no tempo, mas na pequenez que é a marca desse governo. Até presidente do governo militar fez melhor, soube falar para o mundo, soube entender onde estava.

Em pouco mais de 12 minutos de fala, a agência de checagem de dados Lupa identificou 5 informações falsas, 4 exageradas, 1 contraditória (afirmou que “apoiamos” a vacinação… apoiamos, quem, cara pálida?), 1 a confirmar (o Brasil estaria no caminho para antecipar o alcance da neutralidade climática em dez anos, de 2060 para 2050 e ainda quis posar de bonito, perguntando “Que país tem uma política de proteção ambiental como a nossa?”), 4 verdadeiras, mas… nem tanto e 1 verdadeira (número de vacinas distribuídas no Brasil contra a Covid-19).

O Estadão Verifica encontrou pelo menos 4 afirmações falsas ou enganosas no discurso. O site Fato ou Fake destacou 5 mentiras, entre elas, a frase “Nosso Banco de Desenvolvimento era usado para financiar obras em países comunistas sem garantias. Quem honra esses compromissos é o próprio povo brasileiro”. Desde 1998, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) financiou empreendimentos brasileiros em pelo menos 15 países da África e da América Latina, incluindo Venezuela, Cuba, Argentina, Angola e Moçambique. Nenhum destes empréstimos, no entanto, foi feito sem garantias, esclareceu o site. Não podemos esquecer ainda que esses financiamentos geram empregos para brasileiros e comercialização de produtos nacionais.

Não vou nem comentar do ridículo da fala de que o Brasil estava à beira do socialismo… e do momento que ele nos fez passar aquela vergonha internacional imensa, quando deu uma de curandeiro, defendendo tratamento precoce, que nada mais é do que o uso de medicamentos não comprovados para o combate à Covid-19. O que nos consola é que tem brasileiros por lá, mostrando que ele não nos representa.

Bolsonaro presidente, quem aguenta?

Por que é preciso acabar com o PT?

manchadoEnquanto leio “Os excluídos da história – operários, mulheres, prisioneiros“, de Michelle Perrot, editora Paz e Terra, compreendo muito claramente a construção histórica que leva à necessidade atual de dizimar o Partido dos Trabalhadores no Brasil. Uma construção que inicia com os motins de mulheres durante a Revolução Industrial, como em 1788, em Barneville, na França. Se dá também em Vienne, na França de 1819. No mesmo ano, segue em Limoux e em Carcassonne… A união daquelas mulheres fez com que elas percebessem que unidas podiam mais.

O PT é hoje um dos maiores partidos identitários da Classe Trabalhadora no mundo. Representa essa união que dá força para as conquistas. A existência de um partido como o PT eleva a autoestima do trabalhador e o estimula a exigir mais direitos. Ele está oprimido, na fábrica, no escritório, no banco, mas ele sabe que existe uma instituição que trabalha por ele, que tem em sua carta de formação, em seu estatuto, em seus objetivos, defender os direitos daquele trabalhador explorado no chamado chão de fábrica.

A empregada doméstica estava sendo escravizada na casa da patroa, mas ouvia no seu radinho de pilha notícias da Benedita da Silva, que também tinha sido empregada doméstica, e agora era política pelo PT e estava lutando por direitos para as empregadas domésticas. E lutou incansavelmente, até a aprovação da PEC das Domésticas, Proposta de Emenda Constitucional que garantiu aos empregados domésticos direitos trabalhistas que antes ficavam a critério dos patrões, como jornada de trabalho, férias, pagamento de 13o salário, folga semanal.

ranking políticos cassadosPor um motivo como este ninguém lembra do PT, não é mesmo? Mas lembram para falar da corrupção, de como o partido destruiu ao Brasil… O que me causa estranheza é que o foco seja o PT mesmo quando ele esteja em 9o lugar no ranking dos políticos cassados de 2000 a 2015, de acordo com dados do TSE. O DEM é o campeão, com 69 políticos cassados, seguido pelo PMDB (agora MDB), com 66, e pelo PSDB, com 58. Do PT, foram 10. Mas ninguém fala que é preciso acabar com o PSDB ou com qualquer outro.

O PT acabou com a Petrobras, diz o senso comum. Então, veja o gráfico abaixo, sobre os políticos que responderam a inquéritos por suspeita de corrupção na Petrobrás:

investigados em esquemas de propina

No primeiro ano do governo Lula, 2003, a Polícia Federal realizou 16 operações de combate à corrupção, já no ano seguinte, foram 42 operações. Em 2008, 273 operações para combater a corrupção, em todos os níveis de governo. Em 2010, foram 272 ações. No acumulado do governo do presidente Lula, a Polícia Federal realizou 1.060 operações de combate à corrupção. Em todos os oitos anos de governo Fernando Henrique Cardoso foram registradas 48 operações contra a corrupção pela Polícia Federal. Em discurso no Senado, a senadora Ângela Portela (PT-RR) observou que isso foi possível graças à decisão do presidente Lula de fortalecer a Polícia Federal: durante os mandatos de Lula foram contratados mais servidores para a Polícia Federal por meio de concurso público, além de o orçamento da instituição ter sido ampliado e terem sido adquiridos equipamentos de inteligência. “Também durante o governo Lula, a Justiça Federal passou de 100 varas no país para 513”, informou a senadora.

Mas a questão é que ter um partido como o PT, estimula o trabalhador no seu dia-a-dia a buscar mais direitos, faz com que ele se sinta representado, faz o jovem da periferia andar de cabeça erguida, encoraja o homem do campo a não aceitar um prato de comida em troca de trabalho suado de sol a sol. Por isso, era preciso acabar com o PT. Então, foi criada uma cortina de fumaça e apresentado um cenário absolutamente descolado da realidade dos fatos para as pessoas acreditarem que o PT era o grande mal do Brasil. Colaram a etiqueta da corrupção no partido que fortaleceu o combate à corrupção e que, numericamente, não tinha o maior número de corruptos nos esquemas existentes.

Não estou dizendo aqui que devemos passar a mão na cabeça das pessoas do PT que sucumbiram à corrupção. Ao contrário, devem ser exemplarmente punidas, por tudo que o PT representa, inclusive. Mas as instituições devem ser maiores que as pessoas. O dia que descobrirmos um homem que pratique desvios no Corpo de Bombeiros, não vamos fechar a instituição de maior confiabilidade da população, vamos punir este homem. O dia que houver um diretor que cometa irregularidades na Fiocruz, não vamos acabar com aquela que é uma instituição que há mais de um século promove saúde e desenvolvimento social. Da mesma forma, não podemos acabar com a instituição que garante a autoestima, a força para lutar e acreditar nos seus direitos e a certeza de representatividade da camada mais expressiva da população, que é o Partido dos Trabalhadores, por causa de alguns homens que não honraram tal instituição.

É justamente porque o PT dá voz e vez a quem nunca teve, porque o PT abriu a porta da senzala e permitiu que quem dela saísse sentasse na sala de estar da Casa Grande, que criaram a ideia de que é preciso acabar com o PT. Eles sabem que se não conseguirem – e não conseguirão! – a Senzala nunca mais vai voltar para “o seu lugar”.

Por tudo isso, eu não aguento ver gente com capacidade cognitiva preservada, caindo nessa conversa de que é preciso acabar com o PT. Quem diz isso, ou é muito ingênuo, ou faz parte da Casa Grande e está muito incomodado com os avanços sociais que os anos de governo PT nos garantiram.

Afinal, votou na Dilma votou no Temer?

Dentro de um mês vamos ter eleições no Brasil – assim esperamos, ao menos – e uma questão que tem me incomodado muito há dois anos é a minha descoberta do quanto as pessoas não têm a menor noção do mecanismo da eleição.

Isso ficou claro quando Michel Temer começou a executar o programa de governo Ponte para o Futuro e a gente passou a ouvir na rua que a culpa é de quem elegeu a Dilma, porque “votou na Dilma votou no Temer”.

Não! Eu não aguento ouvir isso! É a confissão suprema de que não está entendendo nada.

lei 9.504/97, que estabelece normas para as eleições, exige que candidatos a chefe do Executivo entreguem seus planos de governo à Justiça Eleitoral, como parte da lista de documentos obrigatórios. Ou seja, não entregar impossibilita o registro da candidatura.

Em 2014, quando o nome de Dilma foi registrado como candidata à presidência, junto foram registrados o nome de Temer como candidato a vice e o programa de governo Mais mudanças, mais futuro. Votar na Dilma era votar no Mais mudanças, mais futuro.

É importante entender que a pessoa na qual votamos é quem executará o plano de ação que escolhemos para o governo. Ao votar na urna, estamos escolhendo um projeto de país que queremos, bem como um projeto de estado ou cidade. Um projeto que será alcançado com a colocação em prática de determinado programa de governo.

Em 2014, a maioria do povo brasileiro escolheu o plano Mais mudanças, mais futuro para ser executado. Ainda que a Dilma tivesse cometido crime de responsabilidade e merecesse sofrer o impedimento de continuar como presidenta da República, o sucessor deveria ter continuado o mandato agindo com base no previsto no plano escolhido pela maioria do povo brasileiro. Aí sim, o “votou na Dilma, votou no Temer” faria sentido.

mais mudanças mais futuroNo entanto, o que aconteceu foi que o vice-presidente, eleito junto com a Dilma para colocar em prática aquele programa, passou a implementar outro programa, o Ponte para o Futuro, que não foi submetido à aprovação popular. A Dilma sofreu o impeachment (ainda que injustamente), mas não seu programa. Não houve nova eleição. O povo tinha escolhido que fosse implementado o programa de governo Mais mudanças, mais futuro durante quatro anos. Alterar isso, passar a implementar outro programa no meio do mandato foi um golpe na vontade do povo.

Daqui a um mês, vamos escolher o plano de governo a ser colocado em prática no Brasil a partir de 2019. Vale o mesmo para os governos estaduais e do Distrito Federal. Em tese, a propaganda eleitoral serve para que os candidatos divulguem esses planos de governo. Mas a melhor forma de saber exatamente o que pretende fazer cada candidato, é conhecer seu programa de governo protocolado juntamente com a sua candidatura.

Por exemplo, se você ficou sensibilizado com a destruição do Museu Nacional, que pegou fogo no Rio de Janeiro no início de setembro, e acha que o próximo presidente tem que ter política específica para museus, saiba que somente dois programas de governo tratam disso. Ou seja, se votar em qualquer um dos outros, não vai poder reclamar que não fizeram nada pelos museus, porque eles nem disseram que fariam mesmo.

Leia mais sobre os programas de governo na matéria Qual o valor prático dos planos de governo entregues ao TSE.

O pior do ser humano

Está aí o fim de ano, período de festas e férias e, com ele, a temporada de descarte. Infelizmente, não estou falando de descarte de coisas que as pessoas não usam mais em suas casas. Estou falando de descarte de vidas. Em um só dia, na minha página do Facebook vi dois posts de gente que está doando seus cães. Motivo: mudança.

marco-antonio-guimara%cc%83esUm deles, o dono é o Marco Antonio Guimarães, parece que do Rio de Janeiro. O outro só sei que é de Belo Horizonte, mas não tive acesso ao nome da dita família. A posse responsável de animais não se trata apenas de cuidar bem, alimentar, manter hidratado e acompanhar sua saúde, implica também em entender que é um ser vivo, que tem sentimentos e que sua existência pode durar algumas décadas. Antes de escolher ter um animal para alegrar a sua casa, é importante entender que sua vida passa a estar atrelada a ele, que você terá que ser responsável por sua existência, enquanto ela durar.

Qualquer pessoa que tenha tido breve contato com animais domesticados sabe que eles são extremamente sensíveis, capazes de se comportar de forma diferente se os humanos que moram com eles estão tristes ou doentes. Quando alguém da família se ausenta por longo período ou morre, eles ficam claramente prostrados. Quando a família viaja, mesmo que os animais fiquem em locais que eles adorem, com pessoas que conhecem e os tratem bem, o retorno é sempre uma festa.

O animal é parte da família. Ele dá vida e alegria para a casa, ele é companhia e conforto. Ele traz benefícios para a saúde dos humanos com os quais convive. Como é possível, depois de ser beneficiado, de tantos bons momentos, a família achar que aquele ser não cabe mais na sua vida e pronto?

No segundo caso que citei, chegou o dia da família se mudar e eles simplesmente colocaram o cachorro do lado de fora da casa e tchau. Uma pessoa que sabia da ameaça que o cão sofria e estava monitorando o caso acabou ficando com o cão como lar temporário. O primeiro caso, parece que antes de se mudar encontrou alguém que quisesse. Mas eu não diferencio um do outro. Entrega o cão com seus pertences como se fosse uma blusa que você decide que não vai mais usar e deixa pra trás na mudança? O cão se apegou àquela família, aos cheiros, às coisas dela, tem seus hábitos construídos a partir daquela convivência, como horários de dormir e comer.

O que me deixa mais chocada ao ver a proliferação dessas situações é que pessoas que, a princípio, realmente amam seus animais de estimação, passam a mão na cabeça de gente que tem esse tipo de atitude e ainda argumentam: é melhor a família tentar encontrar um lar do que simplesmente deixar na rua. No caso, é no máximo, com muita bondade, menos pior, não tem melhor. Passar a mão na cabeça de gente que comete uma crueldade dessas é contribuir para a banalização da doação. Então, o cara faz um post no Facebook, doa o animal em vez de deixar na rua e aí fica de bonzinho? Não, não é bonzinho não. É cruel, é malvado, não tem coração, não mereceu nem um minuto da felicidade que aquele animal deu a ele.

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Em Belo Horizonte, esse cara foi deixado pra trás

 

Existem diversos estudos que mostram que a personalidade do animal de estimação se parece com a do dono. Ou seja, as pessoas com quem o cão ou gato convivem moldam a forma desse animal ser. “A própria ideia de que os cães têm uma personalidade pode parecer estranha para algumas pessoas, mas experiências anteriores demonstraram que características humanas como a extroversão podem corresponder a medições objetivas do comportamento de um cachorro – como, por exemplo, se ele é agressivo com estranhos ou se são mais tímidos”, conforme consta em matéria da BBC sobre estudos que mostram como os cães se parecem com seus donos. A matéria destaca ainda que “um cão pode viver mais do que um casamento, segundo as estatísticas de divórcio.” Já existem casos, inclusive, de sentenças judiciais regulamentando a guarda compartilhada de animal doméstico no caso de separação do casal.

Então, imagine que trauma é para o animal, de uma hora para outra, perder todas as suas referências. Não é uma pessoa da família que morreu ou foi morar longe e ele ficou com as demais, não é a casa que mudou e ele não tem mais o sofá que gostava, mas tem as pessoas. É tudo ao mesmo tempo: perde todas as pessoas que conhecia como família, perde todos os móveis, perde a casa, perde todas as referências. Não consigo passar a mão na cabeça de ser humano que faz uma coisa dessas. Para mim, é crueldade em nível avançado.

Posse responsável deveria implicar em assumir um compromisso com aquela vida enquanto ela existir. A vida é feita de escolhas e, se a pessoa escolheu ter um animal de estimação para alegrar a sua vida, pode ter que, no futuro, abrir mão de determinadas mudanças ou situações que impeçam a presença do animal. Gente que não entende isso, eu não aguento!

 

 

 

Quem está de luto sou eu

Há algumas horas eu fiz um post no Facebook divulgando a matéria do DCM, cujo link está no fim deste texto. Mas acordei com a sensação de que o acontecimento vale mais que um post no Facebook, onde tudo é passageiro, até as ditas amizades. Resolvi fazer um texto para o blog, que ainda é mais perene.

Depois dessa publicação vou fechar meu Facebook pelo menos por hoje. Estou de luto. Estou de luto por vocês que foram para a Paulista ontem depois do anúncio de Lula como ministro, por cada um de vocês que tem participado dessas manifestações. Todos, sem exceção: os mal intencionados e os ingênuos, os que foram de graça e os que levaram vantagens para ir, cada um que engrossou a massa dessas manifestações contra o governo será responsável por cada agressão e cada morte que vier a ocorrer. Porque elas já estão ocorrendo e vão ocorrer cada vez mais.

Por Bundesarchiv, Bild 102-09844 / CC-BY-SA 3.0

Benito Mussolini, ditador que fundou o movimento fascista, em discurso em Milão em 1930. Fonte: Bundesarchiv, Bild 102-09844 / CC-BY-SA 3.0

Se alguém que me lê não entende direito o que é fascismo, por que essas manifestações contra o atual governo brasileiro têm sido chamadas de fascistas, esse episódio é a ilustração perfeita do fascismo: ocorreu uma manifestação que não havia sido previamente informada, não foi negociada com as autoridades no prazo exigido (no meu tempo de estudante na Paulista, isso resultava em cacetete nas costas), mas a manifestação foi devidamente escoltada pela polícia tucana. Então, um casal que passava por lá, porque era seu caminho e talvez nem soubessem da tal manifestação relâmpago, foi abordado por um manifestante que gritou “Fora Lula” no ouvido de um deles, que respondeu não concordar. Veja bem, ele não gritou “Fica Lula”, ele não ofendeu ninguém, ele apenas não concordou. Foi espancado. Agora você tem que sair às ruas e gritar o que estão gritando, para não apanhar? Mesmo que você não concorde, você tem que engrossar a massa com gritos de guerra que atacam aquilo no que você acredita. Isso é fascismo. Isso é opressão. Isso não é civilizado.

Nasci em meio a uma ditadura militar e, de criança, meu pai me ensinou a ter medo da polícia. Era fácil identificar, usavam fardas. Agora tenho medo de todo mundo. Acordei com medo, porque a última coisa que vi antes de dormir foi essa história e não foi fácil dormir depois disso. Mesmo com a certeza de estar defendendo uma sociedade mais justa, durmo com medo do meu vizinho, de andar na rua, de dizer o que penso, de usar uma roupa com a cor que eu gosto. Tenho tido medo de viver, de ser eu mesma, de me expressar, apenas porque não acho certo a empregada doméstica ter menos direitos que o executivo, apenas porque fico feliz em ver que 36 milhões de pessoas não passam mais fome nesse país, apenas porque acho que o fazendeiro que explora seus peões como escravos está errado, apenas porque acredito que todos os trâmites legais, conquistados a duras penas, devem ser considerados antes da condenação e detenção de alguém.

Tenho medo do ódio que vive no coração dessas pessoas. Não sei como esses manifestantes têm conseguido dormir com ele, mas enxergar eu tenho certeza que não conseguem mais.

Aqui a matéria do Kiko Nogueira, que no título pergunta: MORO, UM CASAL FOI ESPANCADO NA PAULISTA POR NÃO GRITAR “FORA LULA”. ERA ESSA A IDEIA?

Atualização 17 mar 2016, às 17h40: na tarde do dia seguinte ao ocorrido, uma das vítimas, Isadora, relatou passo a passo o que aconteceu. Se você tiver estômago forte, leia aqui. O meu revirou várias vezes durante a leitura…

Números deste blog em 2015

Mais uma vez o WordPress providenciou o relatório de atividades do Quem Aguenta? e agora podemos acompanhar aqui os dados de 2015.

Foram cerca de 18 mil visitas, de mais de 100 países. As redes sociais Facebook e Twitter foram os sites que mais mencionaram o blog no ano passado.

estatísticas

O post com mais visualizações foi Curiosidades para ficar bem em Cuba e o mais comentado foi Dois países, quatro hotéis. Ambos de viagens de férias. O relatório trouxe ótimas lembranças!

Veja aqui o relatório completo.

 

As empresas deveriam dar mais valor à última flor do Lácio

evento Electrolux FB
Recentemente, organizei um evento no Facebook com o objetivo de chamar atenção para uma situação que eu vivia ao precisar do atendimento de uma assistência técnica da Electrolux (quem participou do evento, inclusive, pode pular a parte inicial do texto porque já conhece a saga e ir para o 10o parágrafo: –>). Por mais de um mês eu discuti com a assistência técnica BRM e com a fabricante da máquina de lavar roupas se o aparelho poderia ou não ser instalado na minha casa.
O evento foi um sucesso, a máquina foi instalada, as roupas estão limpas, mas uma questão não sai da minha cabeça: tudo não passou de um problema com a língua portuguesa. Eu sempre afirmo e reafirmo que é preciso prestar atenção ao amplo vocabulário que temos em nosso idioma. Há dicionários que trazem mais de 400 mil verbetes. Nossa língua consegue ser lindamente precisa: cada palavra tem seu sentido e é necessário prestar atenção às semelhanças para não cometer erros.
O caso da instalação da máquina foi exatamente esse. Ao ligar na assistência técnica para solicitar a instalação, a atendente perguntou se eu tinha lido o manual e se o local estava adequado. A resposta foi sim para as duas perguntas (sim, eu leio manuais de eletrodomésticos). O técnico veio e entendeu que o local não estava adequado.

No manual está escrito: “Obs.: Recomenda-se um espaço livre de 200 mm em cada lateral a fim de facilitar o aperto dos parafusos de fixação.” Percebam que é uma observação, assim, quase que de passagem, depois das especificações dos requisitos. Mas eu li e sim estava adequado.

Ocorre que o técnico também leu e entendeu: É necessário 200 mm de parede livre em cada lateral. Ele disse que sem 200 mm de parede de cada lado não era possível instalar.

Oras, onde está escrito que é “necessário”? Oras de novo, onde está escrito que é de “parede” livre? Na minha casa, de um dos lados, a parede termina antes dos 200 mm, mas o espaço fica livre, porque tem um corredor! Então, há espaço livre em tamanho ainda maior que o solicitado pelo manual.

Observem que está escrito no manual que tal recomendação é para “facilitar” o trabalho do instalador. Não é para viabilizar. Para quem percebe o significado de cada palavra, são coisas bem diferentes.

A Electrolux, depois de muita explicação, de eu mandar fotos, de ter conversado por horas (literalmente) com o pessoal do SAC, concordou comigo e o departamento de engenharia indicou que fosse feita a instalação. Como a máquina foi instalada e vem funcionando perfeitamente, só posso acreditar que o manual estava certo.

Mas vejam que absurdo: o técnico leu a mesma coisa que eu e teve uma compreensão completamente diferente. Entendeu que recomendação era exigência, entendeu que espaço livre era parede livre, entendeu que facilitar o trabalho do instalador era viabilizar o trabalho do instalador.

–> Quanto dinheiro a Electrolux gastou nessa operação? Horas de funcionários ao telefone comigo, dezenas de trocas de e-mails, engenheiros fazendo análise de fotos e medidas que eu enviei, gente debruçada sobre o manual para entender onde estava a divergência. Isso é só a ponta do iceberg. Ponta de um imenso iceberg de ignorância que flutua em torno das empresas causando prejuízos sem que elas se dêem conta.

No mundo empresarial é comum vermos e-mails com erros dos mais grotescos sendo cometidos: está e estar é uma diferenciação que não existe para muitas pessoas, assim como entendi e entende e compraram e comprarão ou ainda mas e mais.

AOD
Que erros de compreensão do conteúdo essas pequenas trocas de letrinhas não podem causar? Sem falar no bem tão precioso para as empresas: tempo. Já precisei ler o mesmo e-mail mais de três vezes para entender o sentido, tamanha era a confusão entre as palavras.
Muitos dos que percebem culpam a educação básica. Concordo, não saber diferenciar está de estar é problema lá do início da alfabetização. Mas, e se, além de cobrar de forma séria e consistente do poder público, as pessoas fizessem algo para mudar essa triste realidade? Porque, afinal, mesmo que a educação básica venha a ser mais eficiente daqui pra frente, aquele seu colega, que já passou até por uma faculdade, vai continuar não sabendo a diferença entre onde e aonde.
Acredito que aqueles que tiveram acesso a uma educação melhor do que a média têm obrigação social de melhorar esse quadro hoje e, sim, cobrar que no futuro todos cheguem no ambiente corporativo sem confundir mas com mais. Um profissional que estudou em escola particular, frequentou uma boa universidade e recebe e-mails com erros de seus próprios colegas de trabalho tem a obrigação moral de fazer alguma coisa para mudar isso. Pode, por exemplo, oferecer um curso gratuito de português dentro da empresa. Uma hora por semana, dicas básicas. Posso garantir que não mata ninguém. Já fiz algo semelhante (no meu caso era um curso de inglês, porque foi a demanda dos colegas na época) e só saí ganhando.
Mas mais
Não tem condições de fazer seja por que motivo for? Dissemine a informação. Na internet já existem diversas imagens, além de sites sérios com artigos curtos e interessantes que podem ser compartilhados por você. Eu li por exemplo esse aqui: Os 50 erros ortográficos mais comuns no mundo do trabalho. Achei bem legal e me inspirou a escrever esse texto. Existem muitos outros. Claro que antes de compartilhar avalie a qualidade!
Incentive a leitura. Ler é uma das melhores formas de gravar na memória a grafia das palavras. Distribua livros como brindes em festas da empresa, incentive a criação de uma biblioteca no ambiente corporativo, dê dicas de livros interessantes, relacionados ou não ao trabalho.
Pequenas atitudes podem contribuir para melhorar a comunicação na empresa, utilizar melhor o tempo no ambiente de trabalho e melhorar a auto estima dos funcionários, que se sentirão valorizados ao terem mais conhecimento de uma ferramenta tão importante, mas tão maltratada como a língua portuguesa.
Gente que não entende o valor da língua portuguesa, eu não aguento!
 

O mal do país pode não estar onde você pensa…

Se tem coisa que eu não aguento, é ser massa de manobra. Esse negócio de me contarem uma história e já me darem a conclusão, já apontarem quem é o mocinho e quem é o bandido… fico desconfiada. Gosto de fazer meu cérebro trabalhar e descobrir minhas próprias conclusões. Jornalistas, me dêem informação, a interpretação é minha!

Assim, das revistas semanais do Brasil, eu leio apenas a Carta Capital e gosto especialmente dos textos do jornalista André Barrocal, de quem sou fã e ainda tenho o privilégio de ser amiga. Ele faz exatamente isso. Seu texto não me diz o que eu devo pensar ou usa subterfúgios para me fazer chegar às suas conclusões. Ele informa, eu reflito, eu concluo.

capa cartaNa revista dessa semana, a Carta Capital deu mais um show com a matéria de capa Devo, não nego – o rombo de 30 bilhões de reais no orçamento poderia ser coberto pela caça à sonegação. Ao longo da leitura, confirmei algumas suspeitas, concluí coisas novas e encontrei dados importantes para minha compreensão de vários acontecimentos. Talvez algumas conclusões nem fossem esperadas pelo pessoal da revista, talvez eles tivessem outra expectativa, podem ser até conclusões óbvias demais para quem está entranhado nas informações como eles e pode haver outras que eu nem percebi. Mas foi a minha leitura. E divido aqui com vocês, por achar que as informações que constam ali são realmente preciosas.

A matéria trata do rombo no orçamento da União, que poderia ser coberto se os sonegadores fossem obrigados a pagar o que devem. Até dezembro, a Dívida Ativa da União deve ultrapassar 1,5 trilhão de reais, entre impostos, taxas em geral, contribuições à Previdência Social, multas ambientais, entre outras. E não pensem vocês que estamos falando de dívidas dos pequenos comerciantes, de microempresários, dos jovens empreendedores que podem se embananar na contabilidade. “Os maiores caloteiros são companhias poderosas”, observa a matéria. Os setores campeões de pendências tributárias são a indústria de transformação, o comércio, os bancos, os produtores de alimentos e bebidas, as empreiteiras e as instituições de ensino. E mais: “Os grandes grupos econômicos são os principais ocultadores de patrimônio”. Patrimônio esse que seria executado para fins da recuperação do dinheiro não pago quando a empresa perdesse a causa na justiça. São “contribuintes dispostos a ganhar a vida à custa da sociedade”. A matéria mostra ainda que as empresas tem um verdadeiro “planejamento tributário institucionalizado” que visa, justamente, evitar – ou pelo menos postergar ao máximo – o pagamento do que devem ao Estado. Ou seja, mesmo devendo, eles não pagam, são cobrados administrativamente, continuam não pagando, são cobrados judicialmente e aí deitam em berço esplêndido. Conclusão: no rombo das contas públicas, temos um primeiro culpado – as empresas.

As empresas deitam em berço esplêndido enquanto os juízes sentam nos processos, com seus longos dias de férias, licenças, recessos e sem prazo para apresentar o trabalho. Os processos se arrastam. Dos 100 milhões de processos, 70% jamais foram objeto de julgamento. O mais bizarro: quem entra na lista da Dívida Ativa é proibido de participar de licitações, assinar contratos com o poder público e tomar empréstimo oficial. Mas a proibição acaba no momento em que se inicia o processo judicial. Nesse ritmo, de 2008 pra cá, apenas 1,3% do total da dívida foi recuperado. Conclusão: no rombo das contas públicas, temos um segundo culpado – o judiciário.

Mas não tem lei nesse país? Ah, tem sim. “Uma série de leis ultrapassadas e incapazes de produzir sentenças rápidas”, como escreve Barrocal. O advogado tributarista, Heleno Torres, ouvido pela revista, afirma que “a lei brasileira é muito ruim. Não existe nada parecido no mundo”. Conclusão: o Legislativo, que faz as leis, também é culpado.

Não podemos esquecer que os membros do Legislativo (senadores, deputados federais e estaduais e vereadores) têm suas campanhas eleitorais financiadas por grandes empresas ou grupos econômicos. Daí, juntando uma coisa com a outra e com outra que nem está no texto, mas é assunto do momento, dá pra entender por que discutir o financiamento empresarial de campanha é tão importante.

Como escreveu André Barrocal: “No Brasil, sempre foi mais fácil arrancar o couro da tigrada”.


placa Cabo da Boa Esperança

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