Quem está de luto sou eu

Há algumas horas eu fiz um post no Facebook divulgando a matéria do DCM, cujo link está no fim deste texto. Mas acordei com a sensação de que o acontecimento vale mais que um post no Facebook, onde tudo é passageiro, até as ditas amizades. Resolvi fazer um texto para o blog, que ainda é mais perene.

Depois dessa publicação vou fechar meu Facebook pelo menos por hoje. Estou de luto. Estou de luto por vocês que foram para a Paulista ontem depois do anúncio de Lula como ministro, por cada um de vocês que tem participado dessas manifestações. Todos, sem exceção: os mal intencionados e os ingênuos, os que foram de graça e os que levaram vantagens para ir, cada um que engrossou a massa dessas manifestações contra o governo será responsável por cada agressão e cada morte que vier a ocorrer. Porque elas já estão ocorrendo e vão ocorrer cada vez mais.

Por Bundesarchiv, Bild 102-09844 / CC-BY-SA 3.0

Benito Mussolini, ditador que fundou o movimento fascista, em discurso em Milão em 1930. Fonte: Bundesarchiv, Bild 102-09844 / CC-BY-SA 3.0

Se alguém que me lê não entende direito o que é fascismo, por que essas manifestações contra o atual governo brasileiro têm sido chamadas de fascistas, esse episódio é a ilustração perfeita do fascismo: ocorreu uma manifestação que não havia sido previamente informada, não foi negociada com as autoridades no prazo exigido (no meu tempo de estudante na Paulista, isso resultava em cacetete nas costas), mas a manifestação foi devidamente escoltada pela polícia tucana. Então, um casal que passava por lá, porque era seu caminho e talvez nem soubessem da tal manifestação relâmpago, foi abordado por um manifestante que gritou “Fora Lula” no ouvido de um deles, que respondeu não concordar. Veja bem, ele não gritou “Fica Lula”, ele não ofendeu ninguém, ele apenas não concordou. Foi espancado. Agora você tem que sair às ruas e gritar o que estão gritando, para não apanhar? Mesmo que você não concorde, você tem que engrossar a massa com gritos de guerra que atacam aquilo no que você acredita. Isso é fascismo. Isso é opressão. Isso não é civilizado.

Nasci em meio a uma ditadura militar e, de criança, meu pai me ensinou a ter medo da polícia. Era fácil identificar, usavam fardas. Agora tenho medo de todo mundo. Acordei com medo, porque a última coisa que vi antes de dormir foi essa história e não foi fácil dormir depois disso. Mesmo com a certeza de estar defendendo uma sociedade mais justa, durmo com medo do meu vizinho, de andar na rua, de dizer o que penso, de usar uma roupa com a cor que eu gosto. Tenho tido medo de viver, de ser eu mesma, de me expressar, apenas porque não acho certo a empregada doméstica ter menos direitos que o executivo, apenas porque fico feliz em ver que 36 milhões de pessoas não passam mais fome nesse país, apenas porque acho que o fazendeiro que explora seus peões como escravos está errado, apenas porque acredito que todos os trâmites legais, conquistados a duras penas, devem ser considerados antes da condenação e detenção de alguém.

Tenho medo do ódio que vive no coração dessas pessoas. Não sei como esses manifestantes têm conseguido dormir com ele, mas enxergar eu tenho certeza que não conseguem mais.

Aqui a matéria do Kiko Nogueira, que no título pergunta: MORO, UM CASAL FOI ESPANCADO NA PAULISTA POR NÃO GRITAR “FORA LULA”. ERA ESSA A IDEIA?

Atualização 17 mar 2016, às 17h40: na tarde do dia seguinte ao ocorrido, uma das vítimas, Isadora, relatou passo a passo o que aconteceu. Se você tiver estômago forte, leia aqui. O meu revirou várias vezes durante a leitura…

Números deste blog em 2015

Mais uma vez o WordPress providenciou o relatório de atividades do Quem Aguenta? e agora podemos acompanhar aqui os dados de 2015.

Foram cerca de 18 mil visitas, de mais de 100 países. As redes sociais Facebook e Twitter foram os sites que mais mencionaram o blog no ano passado.

estatísticas

O post com mais visualizações foi Curiosidades para ficar bem em Cuba e o mais comentado foi Dois países, quatro hotéis. Ambos de viagens de férias. O relatório trouxe ótimas lembranças!

Veja aqui o relatório completo.

 

As empresas deveriam dar mais valor à última flor do Lácio

evento Electrolux FB
Recentemente, organizei um evento no Facebook com o objetivo de chamar atenção para uma situação que eu vivia ao precisar do atendimento de uma assistência técnica da Electrolux (quem participou do evento, inclusive, pode pular a parte inicial do texto porque já conhece a saga e ir para o 10o parágrafo: –>). Por mais de um mês eu discuti com a assistência técnica BRM e com a fabricante da máquina de lavar roupas se o aparelho poderia ou não ser instalado na minha casa.
O evento foi um sucesso, a máquina foi instalada, as roupas estão limpas, mas uma questão não sai da minha cabeça: tudo não passou de um problema com a língua portuguesa. Eu sempre afirmo e reafirmo que é preciso prestar atenção ao amplo vocabulário que temos em nosso idioma. Há dicionários que trazem mais de 400 mil verbetes. Nossa língua consegue ser lindamente precisa: cada palavra tem seu sentido e é necessário prestar atenção às semelhanças para não cometer erros.
O caso da instalação da máquina foi exatamente esse. Ao ligar na assistência técnica para solicitar a instalação, a atendente perguntou se eu tinha lido o manual e se o local estava adequado. A resposta foi sim para as duas perguntas (sim, eu leio manuais de eletrodomésticos). O técnico veio e entendeu que o local não estava adequado.

No manual está escrito: “Obs.: Recomenda-se um espaço livre de 200 mm em cada lateral a fim de facilitar o aperto dos parafusos de fixação.” Percebam que é uma observação, assim, quase que de passagem, depois das especificações dos requisitos. Mas eu li e sim estava adequado.

Ocorre que o técnico também leu e entendeu: É necessário 200 mm de parede livre em cada lateral. Ele disse que sem 200 mm de parede de cada lado não era possível instalar.

Oras, onde está escrito que é “necessário”? Oras de novo, onde está escrito que é de “parede” livre? Na minha casa, de um dos lados, a parede termina antes dos 200 mm, mas o espaço fica livre, porque tem um corredor! Então, há espaço livre em tamanho ainda maior que o solicitado pelo manual.

Observem que está escrito no manual que tal recomendação é para “facilitar” o trabalho do instalador. Não é para viabilizar. Para quem percebe o significado de cada palavra, são coisas bem diferentes.

A Electrolux, depois de muita explicação, de eu mandar fotos, de ter conversado por horas (literalmente) com o pessoal do SAC, concordou comigo e o departamento de engenharia indicou que fosse feita a instalação. Como a máquina foi instalada e vem funcionando perfeitamente, só posso acreditar que o manual estava certo.

Mas vejam que absurdo: o técnico leu a mesma coisa que eu e teve uma compreensão completamente diferente. Entendeu que recomendação era exigência, entendeu que espaço livre era parede livre, entendeu que facilitar o trabalho do instalador era viabilizar o trabalho do instalador.

–> Quanto dinheiro a Electrolux gastou nessa operação? Horas de funcionários ao telefone comigo, dezenas de trocas de e-mails, engenheiros fazendo análise de fotos e medidas que eu enviei, gente debruçada sobre o manual para entender onde estava a divergência. Isso é só a ponta do iceberg. Ponta de um imenso iceberg de ignorância que flutua em torno das empresas causando prejuízos sem que elas se dêem conta.

No mundo empresarial é comum vermos e-mails com erros dos mais grotescos sendo cometidos: está e estar é uma diferenciação que não existe para muitas pessoas, assim como entendi e entende e compraram e comprarão ou ainda mas e mais.

AOD
Que erros de compreensão do conteúdo essas pequenas trocas de letrinhas não podem causar? Sem falar no bem tão precioso para as empresas: tempo. Já precisei ler o mesmo e-mail mais de três vezes para entender o sentido, tamanha era a confusão entre as palavras.
Muitos dos que percebem culpam a educação básica. Concordo, não saber diferenciar está de estar é problema lá do início da alfabetização. Mas, e se, além de cobrar de forma séria e consistente do poder público, as pessoas fizessem algo para mudar essa triste realidade? Porque, afinal, mesmo que a educação básica venha a ser mais eficiente daqui pra frente, aquele seu colega, que já passou até por uma faculdade, vai continuar não sabendo a diferença entre onde e aonde.
Acredito que aqueles que tiveram acesso a uma educação melhor do que a média têm obrigação social de melhorar esse quadro hoje e, sim, cobrar que no futuro todos cheguem no ambiente corporativo sem confundir mas com mais. Um profissional que estudou em escola particular, frequentou uma boa universidade e recebe e-mails com erros de seus próprios colegas de trabalho tem a obrigação moral de fazer alguma coisa para mudar isso. Pode, por exemplo, oferecer um curso gratuito de português dentro da empresa. Uma hora por semana, dicas básicas. Posso garantir que não mata ninguém. Já fiz algo semelhante (no meu caso era um curso de inglês, porque foi a demanda dos colegas na época) e só saí ganhando.
Mas mais
Não tem condições de fazer seja por que motivo for? Dissemine a informação. Na internet já existem diversas imagens, além de sites sérios com artigos curtos e interessantes que podem ser compartilhados por você. Eu li por exemplo esse aqui: Os 50 erros ortográficos mais comuns no mundo do trabalho. Achei bem legal e me inspirou a escrever esse texto. Existem muitos outros. Claro que antes de compartilhar avalie a qualidade!
Incentive a leitura. Ler é uma das melhores formas de gravar na memória a grafia das palavras. Distribua livros como brindes em festas da empresa, incentive a criação de uma biblioteca no ambiente corporativo, dê dicas de livros interessantes, relacionados ou não ao trabalho.
Pequenas atitudes podem contribuir para melhorar a comunicação na empresa, utilizar melhor o tempo no ambiente de trabalho e melhorar a auto estima dos funcionários, que se sentirão valorizados ao terem mais conhecimento de uma ferramenta tão importante, mas tão maltratada como a língua portuguesa.
Gente que não entende o valor da língua portuguesa, eu não aguento!
 

O mal do país pode não estar onde você pensa…

Se tem coisa que eu não aguento, é ser massa de manobra. Esse negócio de me contarem uma história e já me darem a conclusão, já apontarem quem é o mocinho e quem é o bandido… fico desconfiada. Gosto de fazer meu cérebro trabalhar e descobrir minhas próprias conclusões. Jornalistas, me dêem informação, a interpretação é minha!

Assim, das revistas semanais do Brasil, eu leio apenas a Carta Capital e gosto especialmente dos textos do jornalista André Barrocal, de quem sou fã e ainda tenho o privilégio de ser amiga. Ele faz exatamente isso. Seu texto não me diz o que eu devo pensar ou usa subterfúgios para me fazer chegar às suas conclusões. Ele informa, eu reflito, eu concluo.

capa cartaNa revista dessa semana, a Carta Capital deu mais um show com a matéria de capa Devo, não nego – o rombo de 30 bilhões de reais no orçamento poderia ser coberto pela caça à sonegação. Ao longo da leitura, confirmei algumas suspeitas, concluí coisas novas e encontrei dados importantes para minha compreensão de vários acontecimentos. Talvez algumas conclusões nem fossem esperadas pelo pessoal da revista, talvez eles tivessem outra expectativa, podem ser até conclusões óbvias demais para quem está entranhado nas informações como eles e pode haver outras que eu nem percebi. Mas foi a minha leitura. E divido aqui com vocês, por achar que as informações que constam ali são realmente preciosas.

A matéria trata do rombo no orçamento da União, que poderia ser coberto se os sonegadores fossem obrigados a pagar o que devem. Até dezembro, a Dívida Ativa da União deve ultrapassar 1,5 trilhão de reais, entre impostos, taxas em geral, contribuições à Previdência Social, multas ambientais, entre outras. E não pensem vocês que estamos falando de dívidas dos pequenos comerciantes, de microempresários, dos jovens empreendedores que podem se embananar na contabilidade. “Os maiores caloteiros são companhias poderosas”, observa a matéria. Os setores campeões de pendências tributárias são a indústria de transformação, o comércio, os bancos, os produtores de alimentos e bebidas, as empreiteiras e as instituições de ensino. E mais: “Os grandes grupos econômicos são os principais ocultadores de patrimônio”. Patrimônio esse que seria executado para fins da recuperação do dinheiro não pago quando a empresa perdesse a causa na justiça. São “contribuintes dispostos a ganhar a vida à custa da sociedade”. A matéria mostra ainda que as empresas tem um verdadeiro “planejamento tributário institucionalizado” que visa, justamente, evitar – ou pelo menos postergar ao máximo – o pagamento do que devem ao Estado. Ou seja, mesmo devendo, eles não pagam, são cobrados administrativamente, continuam não pagando, são cobrados judicialmente e aí deitam em berço esplêndido. Conclusão: no rombo das contas públicas, temos um primeiro culpado – as empresas.

As empresas deitam em berço esplêndido enquanto os juízes sentam nos processos, com seus longos dias de férias, licenças, recessos e sem prazo para apresentar o trabalho. Os processos se arrastam. Dos 100 milhões de processos, 70% jamais foram objeto de julgamento. O mais bizarro: quem entra na lista da Dívida Ativa é proibido de participar de licitações, assinar contratos com o poder público e tomar empréstimo oficial. Mas a proibição acaba no momento em que se inicia o processo judicial. Nesse ritmo, de 2008 pra cá, apenas 1,3% do total da dívida foi recuperado. Conclusão: no rombo das contas públicas, temos um segundo culpado – o judiciário.

Mas não tem lei nesse país? Ah, tem sim. “Uma série de leis ultrapassadas e incapazes de produzir sentenças rápidas”, como escreve Barrocal. O advogado tributarista, Heleno Torres, ouvido pela revista, afirma que “a lei brasileira é muito ruim. Não existe nada parecido no mundo”. Conclusão: o Legislativo, que faz as leis, também é culpado.

Não podemos esquecer que os membros do Legislativo (senadores, deputados federais e estaduais e vereadores) têm suas campanhas eleitorais financiadas por grandes empresas ou grupos econômicos. Daí, juntando uma coisa com a outra e com outra que nem está no texto, mas é assunto do momento, dá pra entender por que discutir o financiamento empresarial de campanha é tão importante.

Como escreveu André Barrocal: “No Brasil, sempre foi mais fácil arrancar o couro da tigrada”.

Você conhece Ayaan Hirsi Ali?

Eu gosto de lembrar às pessoas que o noticiário que chega até elas não é nem de longe um retrato da realidade. Já escrevi sobre isso aqui e vou continuar reforçando sempre que possível. Causa incômodo as pessoas acharem que sabem o que se passa no mundo porque lêem jornal todo dia, uma revista semanal e assistem telejornal todas as noites ou ouvem rádio ao longo do dia.

2015-06-23 09.33.30Recentemente, a amiga Patricia Pires me emprestou o livro Infiel, da Companhia das Letras. Então, eu descobri a existência Ayaan Hirsi Ali. Uma mulher que nasceu na Somália, viveu na Etiópia, na Arábia Saudita, no Quênia e na Holanda, onde recebeu a cidadania e foi eleita parlamentar. Na adolescência, ela tinha sido muito religiosa, mas sempre questionou algumas interpretações do Alcorão (o livro sagrado de sua religião mulçumana), que levavam as mulheres à submissão, mutilação sexual e espancamentos brutais. Seus questionamentos fizeram com que ela se afastasse da religião como estava posta em sua cultura. O que ela nunca deixou foram seus valores de defesa das mulheres e pela reforma do islã.

Como deputada na Holanda passou a lutar para que as violações dos direitos humanos não fossem permitidas e acabou por ser condenada à morte pelo fundamentalismo islâmico. O cineasta Theo Van Gogh, que fez o filme Submissão em parceria com ela, foi assassinado de forma brutal. Ela viveu anos sob a tutela do departamento de segurança holandês, com uma parafernália de segurança e guarda-costas similar à da família real, e acabou por deixar o país. O primeiro-ministro Jan Peter Balkenende foi destituído do cargo e foram convocadas novas eleições devido às questões políticas envolvendo Ayaan. E pensar que a gente aqui do outro lado do oceano Atlântico não costuma nem saber o nome do primeiro ministro da Holanda…

Ayaan ensina que é possível adaptar a fé e examiná-la criticamente. Ayaan também ensina que nosso noticiário não nos conta o que se passa no mundo; tem um viés, uma escolha, um filtro. Os parlamentares estadunidenses tossem e aqui no Brasil isso vira notícia. Ayaan passou por tudo isso que narrei e muito mais e eu nem sabia que ela existia. A sugestão que fica é: leiam o livro.

Ver o mundo pelo filtro da midiona, eu não aguento!

Yoani, o filme

cartaz A viagem de YoaniAssisti ao filme A viagem de Yoani, sobre a blogueira cubana que ganha a vida falando contra a ditadura cubana e a falta de liberdade de expressão em seu país. Vive disso, dentro da ilha que acusa.

O filme não alterou minhas convicções em nada (e acho que também não alterou a convicção de quem está convicto do oposto que eu) e pouco acrescentou em termos de informação.

O dado mais relevante apresentado foi a elucidação do mecanismo de financiamento da blogueira. Até mesmo nas colônias de formigas do Butão comenta-se que ela é financiada pelos Estados Unidos e eu já imaginava que não deveriam ser feitos depósitos mensais em cheques da CIA, a agência de inteligência dos Estados Unidos, na sua conta no Banco de Cuba. O filme mostra que ela recebeu dezenas de prêmios da mídia internacional (sempre ela…) em dinheiro. Um deles foi recebido meses depois de ter iniciado seu blog. Este mesmo prêmio só foi concedido ao escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez 14 anos depois de ter iniciado seu trabalho. Estou falando de Gabriel Garcia Marquez, não do Zé da esquina. E Yoani com seu blog não passa da Maria da esquina. No entanto, ela já recebeu tantos prêmios, que acumulam o valor de 158 anos de salário mínimo cubano. Dura a vida da blogueira…

Vale observar que, assim como não acredito que jornalistas de veículos como a Veja, por exemplo, escrevam suas matérias com facas no pescoço, obrigados a digitar o que não querem, penso que a blogueira também não é refém de um sistema maior que ameaça sequestrar e torturar sua família se ela não fizer o que mandam. Os jornalistas da Veja defendem o mesmo projeto de sociedade que seus patrões por isso fazem com a informação o que fazem e Yoani defende e acredita nas ideias que coloca na internet.

Ou seja, não exageremos. Para os dois lados.

Também achei que faltou contextualização na forma como o filme apresenta as negativas que a blogueira teve para sair do país. Eles tratam o assunto como se isso fosse uma característica só de Cuba e fixam-se apenas no caso Yoani. Como já relatei, em viagem a Cuba conversei com muitos cubanos que já saíram do país de forma regular ou tiveram parentes que o fizeram sem nenhuma dificuldade com o governo. Fizeram seu turismo, voltaram e lá estão. Os cubanos que querem deixar a ilha podem fazê-lo e todos os anos quase 950 mil saem. Destes, 830 mil voltam. Significa que menos de 13% se estabelecem no exterior. O que não deve ser uma marca muito maior que a média mundial. Vale ressaltar que apenas 0,6% das pessoas que querem sair do país são proibidas pelo governo, de acordo com a Global Research. Além desse tipo de informação, faltou ao filme observar que o impedimento de saída dos países acontece em qualquer lugar do mundo. Ou você acha que passa na imigração e apresenta seu passaporte quando vai viajar para quê? No Brasil, quem não está em dia com as obrigações eleitorais, não pode ter passaporte. Assim como quem está em dívida com a justiça ou sob julgamento fica impossibilitado de sair, mesmo que tenha passaporte. E cada país tem suas regras. Faltou ao filme esclarecer os motivos que levaram os pedidos de saída de Yoani a serem negados. Só assim conseguiríamos formar um juízo de valor sobre ser ou não perseguição à pobre (nem tanto) blogueira.

Voltando ao que o filme acrescentou, além desta informação sobre do que vive Yoani, o que mais me chamou atenção foi o quanto Yoani se assemelha à Marina Silva: em seu jeito messiânico, em suas roupas, em sua postura, em seu aspecto físico, na cara de vítima que sustenta, na trajetória de vida que é contada, enfim, em absolutamente tudo. Parece um padrão de comportamento.

E, assim como já falei sobre a política brasileira Marina Silva, Yoani também não tem estofo. Não resistiria a um mês de embate político sério, como Marina não sobreviveu quando se tornou cabeça de chapa nas eleições presidenciais de 2014.

Na minha opinião, o filme, que quer ser um documentário, poderia ter seus recursos mais bem aproveitados. Poderia ter se mantido neutro, como se propõe, mas ter sido mais consistente na divulgação de argumentos, tanto da blogueira quanto dos que a criticam, que aparecem no vídeo como uma juventude histérica e inconsistente.

Gente que perde oportunidades, eu não aguento.

Uma fantástica obra de engenharia

Conforme falei aqui, nas férias mais recentes, um dos destinos foi a cidade do Panamá. O objetivo da viagem era conhecer o Canal do Panamá, que liga os oceanos Pacífico e Atlântico, cortando o Panamá, país muito conhecido também pelos chapéus, que não são feitos lá (mas isso é história para outro post). 159 canal do Panamá Eu fui quase que por obrigação com o conhecimento. Na escola estudamos o tal canal, sua importância econômica, tal… achei que, uma vez que faria conexão na cidade onde ele fica, seria razoável dar valor às minhas aulas de geografia e conhecê-lo.

É fantástico! Fiquei maravilhada. Passaria dois dias seguidos olhando aquela obra monumental da engenharia funcionar. Se tivesse uma mínima vocação para os números, estudaria engenharia só para ter a mesma profissão dos que fizeram aquilo. Por que eu não me organizei para fazer o passeio de barco e passar por dentro do Canal? (Sim, tem essa possibilidade!) Sério que isso foi feito há 100 anos? Que genialidade! Como eu demorei tanto tempo para conhecer o Canal do Panamá?

Se você for a algum país com voo que faça conexão na cidade do Panamá, um dos maiores hubs aéreos do continente – hub, para ficar claro, é o ponto de convergência de rotas aéreas – não deixe de visitar o Canal. Se você não estiver indo para esta direção, dê um jeito de ir. Vá ao Panamá. Conheça o Canal. Tem muitas outras coisas para fazer no país também, como passeios a comunidades tradicionais, florestas, a parte antiga da cidade do Panamá, compras, muitas compras. Mas, se não quiser fazer mais nada, somente vá ao Canal do Panamá. A entrada para não residentes custa US$ 15 (quinze dólares) e o Centro de Visitantes funciona diariamente, das 9h às 17h.

Sim, é isso. Um passeio despretensioso, sem grandes expectativas, se transformou num grande entretenimento. Acho que fiquei uma hora lá, olhando os navios passarem de um lado pro outro. E passaria o dia inteiro. No meio da observação, entramos no museu que explica a construção e o funcionamento de tudo aquilo, que fica no Centro de Visitantes das eclusas de Miraflores. Serviu para eu ficar ainda mais maravilhada.

Ao lado esquerdo do ponto de visitação, vemos a primeira comporta

Ao lado esquerdo do ponto de visitação, vemos as entradas para as duas eclusas

Um navio aproxima-se da primeira comporta

Um navio aproxima-se da primeira comporta

Primeira comporta começa a abrir

Primeira comporta começa a abrir

Abriu a primeira comporta

Abriu a primeira comporta

Dois navios se aproximam da segunda comporta, nos dois canais paralelos

Dois navios se aproximam da segunda comporta, nas duas eclusas paralelas

E lá vão para a segunda comporta

Vão para a segunda comporta

Tarantella passou pela segunda comporta

O navio Tarantella passou pela segunda comporta

E lá vai o Tarantella...

E lá vai o Tarantella, seguindo à direita do ponto de visitação

Nas três imagens abaixo, é possível ver como o navio vai emergindo na eclusa, conforma a água preenche o espaço:

10 174 barco de passageiros subindo               11b 175 barco de passageiros subindo                   12 176 barco de passageiros subindo

O canal foi inaugurado em 15 de agosto de 1914 e se tornou um ponto estratégico e militar importantíssimo para os Estados Unidos. Só para se ter uma ideia, antes dele, os navios que iam de Nova Iorque à Califórnia contornavam toda a América pelo Sul, passando pelo Cabo Horn, extremo sul da América do Sul.

Por meio do Tratado Hay-Bunay Varilla, também conhecido como Isthmian Canal Convention, ficou definido que os Estados Unidos teriam o domínio perpétuo sobre a zona que ligava uma costa a outra do istmo onde seria construído o canal. Em troca, o país pagaria 10 milhões de dólares e mais um arrendamento de 250 mil dólares anuais ao Panamá. Trabalhadores de todo o mundo se dirigiram à região para a construção do Canal. Mais de cinco mil deles morreram, vítimas de acidentes, malária, febre amarela e outras doenças tropicais.

Em 1964, 20 estudantes foram mortos ao se manifestarem em defesa da autonomia panamenha, visando tirar a bandeira americana da zona do Canal e substituí-la pela do Panamá. Graças à pressão popular, em 1977 foi assinado um novo tratado, Torrijos-Carter, no qual os presidentes dos Estados Unidos e do Panamá concordaram que a administração do canal ficasse a cargo dos Estados Unidos até 1999 e, a partir de então, o controle seria passado ao Panamá.

Hoje, o canal é um orgulho panamenho e também fonte de riqueza para o país, com a passagem de cerca de 15 mil embarcações por ano. No site apolo11.com é possível ver a explicação de como funciona o Canal. E também acompanhar vídeos em tempo real, neste link aqui. Este outro vídeo aqui também é bem legal, porque mostra, em um minuto, o movimento de 12 horas do Canal em imagens aceleradas. E tem ainda este outro que mostra detalhadamente como funciona o Canal do Panamá. Se você não for pessoalmente, pelo menos visite os sites indicados aqui para ter um pouco da noção desta obra gigantesca, construída mais de um século atrás e que até hoje funciona sob a mesma lógica de operação.

160 canal do Panamá Porque ficar sem viajar e conhecer o mundo… eu não aguento!

Dois países, quatro hotéis

Nossas férias mais recentes se passaram em dois países: Cuba e Panamá. Mas mais do que uma viagem por países, fizemos turismo em hotéis. Em geral, a gente costuma escolher hotéis legais para ficar, mas dessa vez… foram hotéis de fazer turismo dentro. Então, achei que valia um post para contar sobre eles.

Habana Libre, em Havana, Cuba – O nome completo agora é Tryp Habana Libre, porque ele entrou para a rede Meliã, o que foi ótimo, porque revitalizaram o edifício por dentro e por fora, mas sem perder suas características originais. Foi como dormir na história. Em 1 de janeiro de 1959, após a vitória da revolução que libertou cuba da ditadura de Fulgêncio Batista, os revolucionários tomaram o hotel que havia sido construído justamente durante a ditadura e ele passou a ser alojamento e sede do novo governo. Fidel se instalou no apartamento 2.324 e de lá coordenava as atividades no país. Assim foi por três meses. No lobby do hotel tem uma galeria de fotos da época. Lindo ver os revolucionários espalhados com cara de acabados pela luta, nos sofás do grandioso hotel. São 25 andares, com excelente infraestrutura em 10 mil metros quadrados de muita história e ótima localização. Na fachada, um enorme mural de cerâmica, da pintora cubana Amelia Peláez recebe dá as boas vindas aos hóspedes.

Habana Libre

Hotel Nacional, em Havana, Cuba – Construído em 1930, Monumento Nacional desde 1998. Oferece linda vista do Malecón – avenida beira-mar, com calçadão, onde se pode encontrar artistas de rua tocando instrumentos de sopro e apreciar o mar batendo no imenso muro que o separa da calçada. Mas oferece muito mais. História na veia outra vez. Tanta história que, duas vezes por dia, é feito um tour pelo hotel. Eu nunca tinha visto algo igual. No tour, visitamos o bunker que fica sob os jardins e onde se pode aprender sobre a crise dos mísseis, de 1962, e vimos canhões originais que defenderam a ilha na guerra hispano-cubana-norte-americana, de 1898, quando o terreno hoje ocupado pelo hotel era um forte. É possível ver também a galeria de fotos com personalidades conhecidas mundialmente que já estiveram por lá, presidentes de países, atores, cantores, etc. Nas portas de alguns quartos há a indicação dos famosos que já dormiram naquela habitação.

tour Hotel Nacional 1

Sem contar que, de todos os hotéis que eu fui na vida, foi o único que levou a sério a própria propaganda da sustentabilidade. Há mais ou menos uns dez anos, os hotéis passaram a deixar um aviso de que lavar toalhas de banho todos os dias consome muita água e água é vida, é essencial ao planeta, blablabla e, então, se você, hóspede, temsustentabilidade no Hotel Nacional consciência ecológica, deve pensar se é necessário lavar sua toalha hoje e, caso considere que não, você deve deixá-la pendurada; se considerar que deve ser lavada, deixe no chão. Desde que vi isso pela primeira vez, invariavelmente eu tento usar a mesma toalha dois dias seguidos e absolutamente nunca consegui. Ou seja, o hotel fica de bonito como se estivesse preocupado com o meio ambiente, mas não é capaz de treinar seus funcionários a fazerem o que prega. No começo eu enviava reclamação para a gerência, hoje desisti, porque mesmo nos hotéis em que fiz isso e voltei a me hospedar, a regra nunca foi cumprida. E não é que no Nacional de Cuba foi? Gente, lindamente. A toalha que estava no chão foi trocada e a que estava pendurada não.

corredor do hotel Nacional

Meliã Cayo Santa María, Cayerías del Norte, Cuba – Um resort no estilo all inclusive, à beira do mar caribenho, em uma ilha que fica num arquipélago ao norte da grande Ilha. Seis restaurantes, quatro bares, spa, piscinas e amplos quartos com varanda garantem atendimento, descanso e entretenimento 24 horas. A única preocupação do hóspede é decidir o que quer fazer: tomar mojito na beira da piscina ou ser atendido na praia de areia fofa diante do mar azul caribenho? Jantar no restaurante japonês ou no italiano? Participar da aula de ioga ou ouvir a banda cubana que está a tocar no bar do lobby? Massagem…

280 Meliá Cayo Santa María

Hard Rock Hotel Panama Megapolis, Cidade do Panamá, Panamá – O plano inicial era aproveitar a conexão no Panamá para conhecer o Canal do Panamá. Nem dormiríamos no país. No retorno ao Brasíl, chegaríamos de Cuba cedo, iríamos ao passeio e no fim do dia pegaríamos voo para Brasília. Mas a Karla Maria, da agência Mundo Tour, sempre me surpreendendo positivamente, colocou duas noites num hotel, que eu nem sabia que existia, mas quando vi do que se tratava… quis mais! São mais de 1.400 quartos super confortáveis, em um prédio de 63 andares de muito rock na veia. Ficamos num quarto no 55o andar. Dá pra imaginar? Não, né? Então, aí vai a foto:

188 vista do 55o andar do Hard Rock Hotel Panama

E pelos corredores, muitas peças que fizeram a história dor rock and roll.

154 Hard Rock Hotel Panama

Lá dentro também conhecemos o Tauro, restaurante especializado em carnes. O preço é um pouco salgado, mas vale cada centavo. Carne maravilhosa, acompanhamentos perfeitos, ambiente super bem decorado. Para os carnívoros profissionais, é o lugar…

151 Hard Rock Hotel Panama restaurante Tauro

Curiosidades para ficar bem em Cuba 2

Da primeira vez que visitamos Cuba, em 2013, escrevi o post Curiosidades para ficar bem em Cuba, com algumas dicas para não ser pego de calças curtas levando pouco dinheiro e só seu cartão American Express, por exemplo, que não vai servir pra nada lá. Um ano e pouco depois, atualizo as dicas, com reforço especial na “taxa de saída”, porque assisti à cena de duas moças pagando um mico federal e não quero leitor meu passando por isso.
Vamos começar por aí, então:
Taxa de saída – na saída do país, depois de fazer o seu check-in na companhia aérea, é necessário pagar uma taxa aeroportuária, que não é cobrada juntamente com o valor da passagem e só pode ser paga neste momento e em efetivo. Sabe do que se trata? Taxa de embarque. Simples assim. Você paga em absolutamente todo voo que faz no mundo. A única diferença é que em Cuba ela não é paga junto com a passagem. Em geral, em qualquer voo esse não é um valor parcelável, por exemplo. Quando você compra a passagem para pagar em várias parcelas, a primeira tem um valor maior, porque inclui as taxas de embarque, que são destinadas ao aeroporto. No caso de Cuba, não é parcelável, nem pagável de outra forma que não seja em efetivo na hora do embarque. Então, deixando claro: não se paga para sair de Cuba. O que se paga é a taxa de embarque, como em qualquer voo. Na fila para pagar a taxa assistimos duas turistas europeias raivosas bradando que nunca tiveram que pagar para sair de país nenhum, como se ali elas estivessem presas feito reféns. Na verdade, sempre pagaram, pagaram taxa de embarque quando saíram de avião. Exatamente como em Cuba. Tá bom que o governo cubano não ajuda – talvez até se divirta com a situação – e não deixa claro que a taxa aeroportuária é a famosa taxa de embarque, como o valor é conhecido em boa parte do mundo…
Atualmente, a taxa é de 25 CUCs. Portanto, lembre de deixar esta reserva. Na verdade, a saída obedece a uma sequência de filas, que todos fazem igual: check-in, pagamento da taxa de saída e troca dos CUCs que sobraram por euros ou dólares. Os balcões ficam lado a lado e é só seguir o fluxo.
Visto – permanece a mesma política. Antes de ir é preciso tirar o visto, que não é um visto comum, carimbado ou selado no seu passaporte, mas uma espécie de voucher, chamado de Tarjeta Turística e custa atualmente R$ 45. Em geral, as operadoras de turismo que trabalham com o destino, fazem isso para você. Basta enviar uma cópia do passaporte e preencher um formulário. A Tarjeta Turística tem validade de 30 dias, que pode ser prorrogada por mais 30 no próprio hotel onde você se hospedar ou nas autoridades nacionais de imigração. Vale observar que a tarjeta é válida para uma só entrada no território. Se sair, mesmo que voltar antes dos 30 dias, terá que tirar outra. Mais detalhes podem ser encontrados na sessão de Serviços Consulares do site da Embaixada de Cuba no Brasil.
Vale observar que, apesar do visto ser uma tarjeta em separado, você vai precisar do passaporte, com validade mínima de seis meses para entrar no país.
Dinheiro – você pode trocar dólares ou euros por CUCs (a moeda cubana para turistas) em casas de câmbio no aeroporto ou no hotel. Em geral, 1 CUC vale cerca de 1 dólar. Mas trocar euro vale mais porque as taxas sobre o dólar são mais altas. Tem o CUP, que é o Peso Cubano, moeda utilizada pelos cidadãos cubanos, e o CUC, peso conversível, moeda utilizada pelos turistas. Com um CUC você compra cerca de 23 CUPs. No entanto, você não vai precisar fazer isso, porque é turista e não vai usar a moeda dos cubanos. Então, esqueça CUP, pense em CUC (mais ou menos 1 dólar) e relaxe, porque a vida lá é razoavelmente barata. Agora é possível encontrar caixas eletrônicos que permitem saque em CUP ou em CUC. Como você vai sacar com um cartão de crédito estrangeiro, não precisa se preocupar de novo, o governo cubano facilita sua vida e, automaticamente, você vai sacar em CUCs.
Custo – com o equivalente a 50 dólares por dia, você se alimenta, anda de táxi e faz os passeios. Com 100 dólares por dia, você ainda traz na bagagem metade de Cuba. Para se hospedar em um hotel categoria turística (3 estrelas), você vai gastar cerca de US$ 40 por noite, com café da manhã, podendo encontrar boas ofertas, dependendo da temporada. Em um 5 estrelas histórico, como o Hotel Nacional, a brincadeira já fica um pouco mais cara, podendo ultrapassar US$ 100 por noite. Cuba tem lembrancinhas muito originais e também uma boa oferta de livros, tanto em livrarias, quanto em sebos a céu aberto. Nesses lugares, é possível encontrar raridades, como relógios feitos na URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) ou jóias do início do século passado, a preços bastante acessíveis. O preço das lembranças para turistas, como camisetas com a bandeira de Cuba, bolsas com a cara do Che Guevara, etc. não varia muito. Você encontra no centro da cidade mais ou menos o mesmo preço que no hotel ou no aeroporto. É uma das vantagens de tudo ter o mesmo dono, o Estado.
Cartão de crédito – raríssimos ainda são os lugares que aceitam. O melhor é se garantir com dinheiro na mão mesmo. Mas, se for levar, certifique-se que não é emitido por um banco estadunidense. Se for, não será aceito nem onde se aceita cartões. Também não são aceitos cheques de viagem.
Clima – o clima em Cuba é tropical e úmido, com a temperatura variando de 18 a 31 graus. Já a água do mar tem temperatura de 25 a 30 graus. A época de menos chuvas vai de novembro a abril. De julho a outubro, tem a temporada de furacões. Nesse período, você pode até encontrar boas ofertas para ir e se hospedar, mas tem que contar com a possibilidade de perder alguns dias fechado no hotel, para se proteger.
Eletricidade – A corrente em Cuba é 110 V. Mas em alguns hotéis você encontra tomadas 220 V. A tomada padrão é para plugues de dois pinos achatados. Convém levar um adaptador.
Gorjeta – na segunda viagem também entendemos melhor os valores para se deixar de gorjeta. E entendemos que o critério é muito pessoal, de acordo com o quanto o serviço agradou e com a sua realidade financeira. Deixar 10% do valor da conta em bares e restaurantes é visto como justo. Mas se você deixar 1 CUC, independente da conta final, está ok. Para a tiazinha que toma conta do banheiro, 5 ou 10 centavos está bom. Experimentamos não dar gorjeta para o taxista, só pagar o cobrado. Deu certo. Mas também você pode usar o critério dos 10%. A não ser em corridas com valor combinado previamente, quando não é necessário mesmo dar gorjeta. Em geral, 1 CUC para quem você for com a cara está de bom tamanho. Vale observar que em nenhum momento fomos cobrados a deixar gorjeta ou hostilizados por não fazê-lo ou deixar pouco. Nos hotéis, por exemplo, saíamos para curtir a piscina ou alguma área ao ar livre e vinham os músicos ou o atendente do bar nos servia uma bebida. Pela prática de assinar a fatura do consumo ou nem assinar no caso de hotel all inclusive, acabávamos saindo sem dinheiro e não dávamos gorjeta. Absolutamente compreendido. Por outro lado, vimos turistas deixando gorjetas de 10 dólares por pequenos atendimentos.
129 tour pela medicina cubanaSaúde – é preciso estar com a vacina de febre amarela em dia, tomada ao menos dez dias antes da entrada em Cuba. Também é preciso ter um seguro de saúde. Desde maio de 2010, tanto viajantes estrangeiros quanto cubanos residentes no exterior devem ter um seguro de viagem com cobertura para gastos médicos dentro de Cuba. No site da Embaixada de Cuba, você encontra mais informações. Afinal, você achou que ia residir num país capitalista, mas ser atendido pelo serviço público de saúde que é referência mundial em qualidade de graça? Não seria justo, não é mesmo? Residente fora de Cuba, paga pelo atendimento em saúde. Aconteceu conosco. Precisamos ser atendidos e no próprio hotel em que estávamos hospedados tinha um posto de saúde. Fizemos consulta, recebemos medicamentos, tudo na melhor forma. O único problema é que o número do seguro de saúde não nos atendeu no ato e precisamos pagar, para pedir o reembolso no retorno ao Brasil.
Papel higiênico – Está aí um item que eu não costumo listar nas dicas de viagem. Mas, no caso, é importante. Já falei no primeiro post e repito. Papel higiênico é um dos artigos controlados em Cuba. Por conta do embargo econômico sofrido pelo país, a entrada de alguns itens fica difícil. Então, claro que no hotel você encontra o artigo no seu banheiro. Mas, nos banheiros públicos, de museus, restaurantes, casas noturnas, aí pode não haver. Ou, no máximo, tem a tiazinha que toma conta do pedaço em troca de algumas moedas. Ela toma conta não só do banheiro, como do pedaço do papel higiênico também. Você dá uma moeda e ela lhe dá um tanto de papel. Sempre o mesmo tanto, não adianta melhorar a moeda. Então, para evitar imprevistos, a dica é andar sempre com lenços de papel ou mesmo um rolo de papel higiênico na bolsa.
Comunicação – telefonar para o Brasil de telefones fixos sai caro e nem sempre se consegue completar a ligação. O primeiro minuto pode valer mais de 5 CUCs e depois 0,05 centavos a cada minuto. Telefones celulares do exterior podem obter sinal por lá, desde que seja contrato pós pago e a operadora de origem tenha convênio de roaming com a Cubacel. Para mais detalhes, pode entrar no site da operadora cubana, que é o www.cubacel.cu. Internet é cara e rara: de 6 a 10 CUCs por uma hora nos hotéis e você só consegue sinal wi-fi em alguma área restrita, como o lobby, ou nem isso: tem que usar o computador com cabo ADSL do hotel, que não vai disponibilizar muitas máquinas e as que tiver serão lentas. Ou seja, a comunicação com o exterior, em geral, é difícil. Dá até para entender que talvez a ideia seja não deixar os nativos se contaminarem pela propaganda externa, pelo vírus do capitalismo e do consumismo… mas, nós, turistas, já estamos perdidos, nem adianta… enfim, de certa forma é até bom, porque isso faz com que lá férias ganhem ares de férias de verdade.

Cuba além de Havana e Varadero

O básico para fazer em Cuba é a capital, Havana, e uma praiazinha, porque ninguém é de ferro. Afinal, a ilha é no mar do Caribe e isso não é qualquer coisa. Como Varadero é a praia mais próxima de Havana, o destino mais óbvio é lá. Seguindo essa regra, na primeira vez que fomos a Cuba, conhecemos exatamente Havana e Varadero.

Agora, em janeiro de 2015, voltamos para Havana e conhecemos também Santa Clara, Remédios e Cayo Santa María, tudo na província Villa Clara. Ainda falta muito, mas já deu para satisfazer mais nossa sede de compreensão e conhecimento sobre a ilha dos Castro. 091 Villa Clara

Santa Clara é a terra de Che Guevara. Lá ele liderou o Exército Rebelde na tomada do trem blindado, em 29 de dezembro de 1958. A última grande ação da revolução, que permitiu a chegada ao poder em 1 de janeiro de 1959, libertando o povo da ditadura de Fulgêncio Batista.

Para marcar a importância da relação entre o lugar e Che, é lá que se encontra o mausoléu com os restos mortais do herói argentino. Fica ao lado de um museu com peças de vestuário e objetos do cotidiano de Che Guevara, ambos sob um enorme monumento à oeste do Parque Vidal. 044 Santa Clara Che Na mesma cidade também estão preservados alguns vagões do trem blindado, que carregava mais de 400 homens e um poderoso arsenal de armamentos com canhões, bazucas, lança foguetes, metralhadoras, fuzis e inúmeros projéteis. Eles estão no exato local onde o trem foi atacado em uma batalha de uma hora e meia que foi decisiva para o sucesso do Exército Rebelde. 277 assalto ao trem blindado Santa Clara é Che Guevara na veia. Se você admira o cara, vá. Se não admira, leia mais. Mas é também muita agitação cultural. Lá fica a segunda universidade mais famosa de Cuba: Universidad Central Marta Abreu de las Villas. A primeira é a Universidad de La Habana. Com isso, a cidade tem muitos jovens e inquietos universitários, que fazem da vida noturna uma mistura de música, teatro e dança. 042 a cultura em Santa Clara Estando em Santa Clara, você consegue pegar um ônibus até Remédios, da companhia Víazul, e, em menos de uma hora chegar a um dos povoados mais antigos de Cuba, onde fica o bar mais antigo do país em atividade contínua: El Louvre, inaugurado em 1866. Em algumas horas vo060 Remédios restaurante mais antigocê anda a cidade toda, vê a arquitetura colonial, desfruta de um ambiente tranquilo numa pequena cidade pacata do interior.

Tanto em Santa Clara quanto em Remédios, é possível comer em restaurantes destinados ao público local com mais facilidade do que em Havana. Explico: em Cuba temos duas vidas financeiras paralelas – a dos turistas e a dos moradores locais. Contei aqui que isso significa haver duas moedas, o CUC dos estrangeiros e o CUP dos locais. Assim, a maioria dos lugares que frequentamos é para turista ver. Já cobra logo em CUC e quase não se vê cubano como cliente. Daí surgem as várias lendas sobre como os cubanos vivem mal na própria ilha. Com o tempo, passaram a ser permitidos os Paladares, que são restaurantes, instalados nas casas de cubanos, que servem comida típica local, com ares mais caseiros. No entanto, a maioria dos frequentadores ainda é estrangeira. 089 La Toscana Santa Clara

Em Villa Clara conhecemos alguns restaurantes como o Portales de La Plaza (em Remédios) e o La Toscana (em Santa Clara) frequentados por moradores locais. Nesses estabelecimentos, inclusive, a conta veio em CUP e tivemos que pedir a gentileza do garçom converter para podermos pagar com a única moeda que tínhamos, CUC. Para surpresa do leitor mais ingênuo, a comida era ótima, da mesma qualidade que nos restaurantes “para turista ver”. A diferença é que o prato para os locais sai bem mais barato e o serviço é menos cheio de frufru.

Na região, há ainda Trinidad, na província vizinha de Sancti-Spiritus. Não coube no nosso roteiro, mas parece bastante interessante, uma cidade colonial maior e com mais edifícios preservados do que Remédios. Comparando para quem é do Centro-Oeste do Brasil ou conhece a região: Remédios é mais Pirenópolis, Trinidad é mais cidade de Goiás. Fomos a Remédios, pelo mesmo motivo que as pessoas que estão em Brasília, em geral, vão a Pirenópolis: é mais perto.

Nossa última descoberta nessa viagem foi Cayo Santa María. Cayos são as ilhas menores que cercam a grande Ilha de Cuba. Para chegar a Santa María, foi construído El Pedraplén: 48 km de estrada em forma de recifes artificiais que ligam as Cayerías del Norte (seria o arquipélago do Norte). Até Cayo Santa María são 45 pontes na estrada, que permitem o escoamento do mar em meio aos recifes. É uma mistura fantástica de obra da natureza com obra dos homens. Em Cayo Santa María, assim como em Varadero, uma sequência de resorts acolhe os turistas com ótima hospitalidade e grande oferta de serviços e passeios. Dias para não fazer nada, apenas escolher entre água doce ou água salgada, bar da piscina ou bar da praia, Mojito ou Daiquiri, churrascaria ou restaurante japonês, massagem relaxante ou energizante… 118 Cayo Santa María Mas hotel é assunto para outro post, porque tanta informação num só, nem eu aguento.


placa Cabo da Boa Esperança

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